terça-feira, 24 de maio de 2016

Despedida

Outra noite desperto.
Os pensamentos da véspera ainda deixavam os olhos abertos. Revirava-se na cama à procura de uma posição confortável que induzisse ao sono. Respirações cronometradas, profundas, sonolentas. O sono, contudo, não chegava. Pensou na moça que amava e no quanto gostaria que ela estivesse por perto. Mas não era possível. Não era possível fazer declarações apaixonadas e arrependidas, ainda que houvesse arrependimento e paixão. Poucas coisas eram possíveis naquele momento. E a menos provável aconteceu...
A porta do quarto abriu e alguém, segurando uma faca, entrou. A coisa toda foi rápida. Após alguns segundos de embate físico, a faca rasgou o pescoço do rapaz com um barulho de couro seco. O sangue jorrou vermelho no quarto escuro.
Quem tinha a faca fugiu sabe-se lá para onde. O rapaz, agonizante, tentou sair do quarto para descer as escadas e alcançar a rua em busca de socorro, Segurava a garganta. Tentava gritar, mas a dor era intensa. Engasgava no próprio sangue. Teve certeza de que morreria. Lembrou da moça que amava e voltou para a cama. No colchão - molhado e vermelho - repousava o corpo semi-morto. Esticou a mão, pegou o celular. A tela, completamente borrada pelo sangue espesso, reluziu uma luz fraca por conta da baixa carga de energia. 1%, indicou o visor moribundo. Tentou digitar uma última mensagem, mas o cérebro já estava morrendo. Faltava oxigênio. Não havia mais tempo.
Enviou um coração pulsante, afinal.

Nenhum comentário: