quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A sala de aula - outro sonho

Prólogo
Enquanto durmo, visito lugares
onde já vivi num tempo passado.
A minha última sala de aula
é onde mais visito atualmente.

Ato I
Estou trabalhando,
Compro, como, cozinho,
sigo vivendo como que obrigado a viver.
Um telefone - enérgico – toca.
Meu celular vibra e soa numa
fina melodia.
É uma voz. Uma longínqua voz
que habita numa infância muito antiga:
- Você deve voltar à escola.

Ato II
Eu e os meus antigos amigos
dividimos, sentados entre colunas
e fileiras simétricas, o mesmo cômodo:
a sala de aula onde nos formamos.
O queixo barbudo deu lugar ao
rosto coberto de espinhas pestilentas,
o menino que usava topete conserva
uma bela careca de skinhead e engordou
27 kilos. A menina que queria virar enfermeira
virou enfermeira. A menina que queria virar médica
virou enfermeira, também.
Ninguém levou lanche nesse dia.

Ato III
Sentados, todos nós nos conhecemos.
Sorrimos, perguntamos da vida – como anda?
- Corrida. A vida anda sem arreios.
Entre os nossos sorrisos, porém, um fedor emerge.
Um fedor gigantesco que cola nas paredes e
se prende por dentro das nossas narinas.
- É um peido! – Todos riem.
Todos peidavam pela manhã. A sala sempre cheirava a peido.
- Não é um peido! – Diminuímos o ritmo do riso.
É o nosso fedor. Estamos mortos.

Epílogo
Quando acordo, sinto saudades da escola.
Prezo pelos colegas que dividiram as manhãs
onde eu descobri muito do que venho sendo. Prezo
para que estejam vivos e para que estejam bem.
Prezo por muitas coisas quando acordo e percebo
que por mais que eu preze por pessoas que nunca mais vi
aquilo que mais prezo e temo,
aquilo que prezarei acima de tudo que mais amo!,
será a fatalidade de estar preso à vida,
nem ao passado - que só acesso narrando,
nem ao futuro – essa loteria, mas
ao tempo presente.

A vida é como o teatro
que habita sempre no presente contínuo.