domingo, 8 de março de 2015

Primeiro ensaio sobre série de cartas

São Paulo, tarde. Chuva e bafo. Marte em áries.

Meu pai foi um escritor fantástico. Mal pegou na caneta e começou a vencer na vida. Escreveu versinhos soltos, quase improvisados da igreja - mas um pouco mais céticos - num quadro de avisos de uma empresa de pilhas onde trabalhava como empilhador. Aprendeu a produzir planilhas e relatórios numa facilidade que assustaria o senhor. Meu pai, doutor, guardou pouco da muita produção boa que fez quando era jovem. Imagine a dor que isso não lhe trazia, se não guardou registros da época em que escrevia sem a dor da vida sobre as costas.

Meu pai, então, foi forte nesse sentido. Desde que comecei a produzir sintagmas verbais na folha de papel sulfite, todo signo linguístico que reproduzi do alfabeto está guardado em meus armários. Tenho litros e mais litros de folhas repletas de frases, versos, dísticos, baladas, cantos, canções, cantigas, cantadas e extravasões de emoções guardadas do psicólogo. Tenho seis quilos de sobrancelha guardadas comigo. Tenho seis quilos de sobrancelha em meus armários que guardam pó merda e morte.

Queimaram, contudo doutor. Queimaram meus armários. Minha casa foi transformada em pó, pois nunca foi casa, e meus armários verteram chamas. Virou fuligem toda minha tentativa de papel escrito. Só possuo o que produzo, doutor. Não lembro de mim antes. Não lembro daquele jeito de escrever de uma criança. Só possuo o que produzo, doutor. Não existem mais reminiscências, não existem saudades ou lembranças de cheiros e gostos. Existe só o pó dos armários que grudou no chão do meu quarto.

O que faço, doutor? O que faço se só possuo o que produzo?
Fico no aguardo.
Forte abraço!
Bruno

Nenhum comentário: