quarta-feira, 4 de março de 2015

I.

Chove. Chove e não temos mais tanta água, falam na TV a todo tempo. Minhas janelas possuem persianas estáticas. Estão ali para impedir a tristeza dos vidros fumê. Esta, todavia, é sua função: enegrecer os vidros de um quarto de hospital. Vidro é produto de areia e areia é matéria teimosa, gruda mesmo quando seca. E como é filho de areia e fogo, combinação difícil e bonita, o vidro escapa entre as frestas da persiana e me mostra aquilo que ninguém pode negar: chove.

Vejo antes que ouço. A água aparece através de minúsculas gotículas, moléculas conectadas. Um fenômeno natural que, insistem alguns, é terapêutico e auxilia o sono. Fecho os olhos e inspiro fundo, lembrando daquela vez em que quase dormi durante um exame do coração. Ouvia “respire” – eu respirava -, “solte” – eu soltava. Com respeito a essa autoridade dócil, meu corpo obedecia àqueles comandos. Dormi profundamente.

Ao entrar, suavemente sob uma maca eletrônica, no gigantesco maquinário branco, me convenci de que ficaria desperto todo o tempo e não deixaria que nenhuma informação escapasse das minhas retinas. Com o corpo preso e braços amarrados, não podia me mover. Um teto a poucos centímetros do meu rosto criava uma estranha pressão na garganta. Fechei os olhos. “Não estou num caixão”, “não estou num caixão”.

Para dormir, a respiração funda não funciona. Encho o peito – não o diafragma. Solto o ar com cuidado e não penso no corredor do hospital, onde as enfermeiras fazem piadas sobre nós enquanto colocam soro na veia dos pacientes.

A chuva não ajuda a dormir.

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