quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Brincadeiras

Beijo pouco, falo menos ainda. Mas desde pequeno
invento conversas com meu coração.
Amei Joyce bem cedo
(desde o pré).
Naquele dia, cheguei na sala
Não conhecia ninguém.
Sentei numa mesa redonda
Sozinho
sozinho
só...

Lucas me convidou para sentar ao seu lado
(Lucas é menino gordinho bonzinho cara de bolacha
que sempre sorri pede o lanche e foi meu melhor amigo
desde esse dia! [Vou ser padrinho do casamento dele!] ).

Desde esse dia amiguei com Lucas
E desde esse dia amei minha primeira Joyce

Aos poucos, meu coração foi falandinho
Dizendo coisas bonitinhas e engraçadas
- Namora comigo?
- Não!

(O coração fala merda)

Desde então, o coração calou.
Embravejei e jurei não pedir mais conselhos.
Falava, as vezes, mas sempre falava Joyce.
E eu dizia
- Não.

Um dia, liguei na casa dela disposto a tentar o namoro de novo.
207-1530
- Alô?
- Poderia falar com a Joyce?
- Oi, é ela.
- Oi, Joyce. É o Bruno.
- Oi, Bruno.
- ... Só liguei pra dizer que o número de telefone da minha casa mudou.
- Ah, tá! Uma vez eu liguei aí e a gravação me informou.

Desliguei com o coração no gancho, com um orgulho de não ter dito
- Namora comigo?
E achei linda a palavra 'informou'.

Foi a brincadeira mais longa. Durou oito anos.
Não teve final triste. Joyce é mulher e doutoranda em medicina
Eu... Um menino que escreve quando está sozinho.

O coração falou outra vez, mais tarde.
Nessa época, conversávamos pouco.
Ele sabia que era melhor ficar quieto
Eu sabia que era melhor não mexer com ele

Ele falou com outra voz que
eu
não
reconheci.

Com a Bruna doeu.
Doeu. O coração falou merda.
Falou demais.
E pra completar
Com outra voz.

Uma voz mais grave, mais madura
que ainda sentia saudades de brincar
de ligar no meio da tarde
em cima das cadeiras da sala
e perguntar
- Namora comigo?

Não! E informar...
- .. Só liguei pra dizer que o número de telefone da minha casa mudou.

Nunca precisamos
eu e o coração
dizer coisas dessa leva.
Sempre dissemos coisas demais.
Outros membros começaram a querer falar
Mas o coração
- ditador implacável do meu corpo -
nunca deixava.
Queria monólogos
queria falar sozinho.
O coração era o chefe de tudo
achava bonito mandar na boca
e nas pernas que ficavam bambas.

Houve um dia em que o coração calou...

E, desde então, meu coração apenas assovia
músicas bonitas e tristes.
Meu coração nunca fez coisas tão lindas.
Descobriu como falar coisas sem falar.
Descobriu a ser quieto
E ter algum charme estranho, meio descompassado.

Assovia alguns forrós
assovia músicas de amor
Músicas que ninguém nunca inventou
E músicas que nunca existiram
- mas que um dia existirão!

Mas o que eu mais gosto
o que me tira os pés do chão
é quando meu coração
- ditador implacável do meu corpo -
deixa todos com saudade
e vai brincar com a minha mão.

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