quarta-feira, 21 de maio de 2014

As cidades e os outros

Passando por uma larga estrada chega-se em Nélida, cidade do povo sem fim. As ruas são sempre apinhadas de gente que pouco conversa e passa horas contado rubis nas portas dos mercados de rua. Os peixeiros nada sabem além de pescar e limpar, os vendedores nada sabem além de vender, os bêbados nada sabem além de falar verdades e galantear o povo. Nélida é uma cidade com muitos cheiros, sempre movimentada, sem tempo para se observar o Chafariz dos Prazeres, ou a estátua do Homem que Ri, ambas no centro da cidade, próximas à Ágora.

Aquele que se detém, entretanto, observa que Nélida não é populosa. Nélida é a cidade de um único habitante furioso. Em Nélida abriu-se um portal que converge para milhares de universos. Em um, ele é cozinheira, no outro é prefeito. Existe um terceiro, um vigésimo, um quadricentésimo... E todos estão correndo pelas ruas sujas de Nélida enquanto o sol se põe de maneira bailarina por trás dos cafezais.

Dobrando o morro que delimita o fim da cidade, o viajante ainda está pesado. Ficam duas questões: se Nélida é uma cidade onde a esquizofrenia toma conta daquele que a conhece ou se, afinal de contas, o mundo é um lugar solitário habitado por uma única pessoa.

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