quinta-feira, 29 de maio de 2014

sp

I

na rua tem nome. coisa bonito
o risco a morte que a laia atura
alguém vai aos céus levando o perigo
rubro. no preto que surge a pintura
o mundo: coisa pintada ou não é
o pixo falou fala coisa dura
bicho no ninho que cai pixo é
pixo e as verdades que o muro atura
lixo no pixo é mania mulek
vagabundo é mato atura patrão
foca na vida que toma pileque
nós se encontra na consolação
        e diz o sol tá saindo escondido
        que hoje o dia já acordou rendido

II

a cidade é obra
feita por mil mãos de deus
que desordenam os bilhetes de metrô
e colocam seus autógrafos nas paredes dos prédios

a cidade constrói um sorriso
que está banguela e feio
e toma sopa nos restaurantes populares
que deus criou para amenizar os pobres


III

a fuligem já virou ar
e o pó já tomou o coração
e os bolsos
e os relógios
e os livros
e o nosso jantar

mesmo que hoje não seja o frango de domingo

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Silêncio

Existem espaços úmidos,
frios e dementes
Onde a paz é torturada 
s   i   l   e   n   c   i   o   s   a   m   e   n   t   e

quarta-feira, 21 de maio de 2014

As cidades e os outros

Passando por uma larga estrada chega-se em Nélida, cidade do povo sem fim. As ruas são sempre apinhadas de gente que pouco conversa e passa horas contado rubis nas portas dos mercados de rua. Os peixeiros nada sabem além de pescar e limpar, os vendedores nada sabem além de vender, os bêbados nada sabem além de falar verdades e galantear o povo. Nélida é uma cidade com muitos cheiros, sempre movimentada, sem tempo para se observar o Chafariz dos Prazeres, ou a estátua do Homem que Ri, ambas no centro da cidade, próximas à Ágora.

Aquele que se detém, entretanto, observa que Nélida não é populosa. Nélida é a cidade de um único habitante furioso. Em Nélida abriu-se um portal que converge para milhares de universos. Em um, ele é cozinheira, no outro é prefeito. Existe um terceiro, um vigésimo, um quadricentésimo... E todos estão correndo pelas ruas sujas de Nélida enquanto o sol se põe de maneira bailarina por trás dos cafezais.

Dobrando o morro que delimita o fim da cidade, o viajante ainda está pesado. Ficam duas questões: se Nélida é uma cidade onde a esquizofrenia toma conta daquele que a conhece ou se, afinal de contas, o mundo é um lugar solitário habitado por uma única pessoa.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

tijolo

tijolo é gente
deveria ser mesmo porque será
algum dia será gente o tijolo
que esta na parede do meu quarto

e será gente boa
dessas que no final da noite
conta histórias e dá risada
e se embebeda com o que hoje é mato

esse tijolo é gente
já viu tanta morte
passou por tanta coisa
aguentou cada choro bravo

(e ainda nem caiu da parede!)