domingo, 23 de fevereiro de 2014

a janela

aquilo era mesmo um quadro. muitas vezes e bota muitas havia parado em frente à janela e olhado o movimento. parava sempre entre dois momentos. como uma trégua ou um arrego. sem respirar o fôlego era necessário. ultimamente andamos assim. sem fôlego e necessitados.

aquilo era tanto quadro como pela primeira vez era momento. os carros passavam como fúria! descontrolados. em solidão... e desespero de esculpir as metas de atropelar o tempo. era sem noção de sanidade.

essa janela é lisa por dois lados. não pretende se tornar passagem nem horizonte. essa janela presa à parede é só buraco que prefere ficar fechado com muita tem muita fuligem poluição morte e tudo pelas frestas não gostam de ser assim penetradas por insetos que acham buracos maiores como essa janela.

aquilo era mesmo um quadro. não mostrava a paisagem do dia. mostrava a alma seca daquilo que estava dentro. naquela janela oi sol penetrava oi sol. como ele costuma penetrar em todos os lugares em que não é chamado.

a procura da próxima esquina mas tudo criava coisas bonitas de se ver de longe. as grandes cidades são isso: ... coisas bonitas para se ver de longe.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A lâmpada

Um poste ilumina a rua
que vejo pela janela do meu quarto.
Me detenho e observo a sombra
sobre os corpos

Estou debaixo da luz
e me observo através de uma janela.
Consigo me ver
de braços livres e olhar seresteiro.

Preocupas?

Teatro

entrego
deixo de ser
e volto sendo mais

-

nós dois não podemos ser
eu sou e
- por isso -
você somos

O pássaro

Produzo muitas coisas
em minha imensa mediocridade.
Produzo, entretanto,
coisas que me sublimam de amor.
Como esse pássaro que não voa.

Esse pássaro que não voa,
é feito à minha maneira.
Pensa ser pessoa
só por me amar demais!
Mas não percebe que ele pode,
não percebe - pobrezinho -
não percebe que ele pode
ter o céu dos animais.

O cesto

O mundo pára
para que eu decida arrumar o gigantesco cesto que há perto de mim.
Abro-o, lentamente,
para catar qualquer coisa que eu já perdi
e decidir o que vai
e o que espera para ir.

Fico tempos e tempos
trabalhando, avaliando.
O cesto, sempre cheio,
indica-me algo que eu não sei saber.
Corto-me em arames,
sujo as mãos,
espirro! Espirro muito!
Jogando para fora
tudo aquilo que está morto
e alguém diz:
- É preciso virar o cesto!

Ignoro quaisquer conselhos
e persisto, em labuta, minha missão de ourives
Este vai, este fica
a lógica impera absoluta
ou é moldada pelas emoções?
Uma foto que vai
algum papel amassado
que guarda o numero de um telefone
fica! (mas pode trazer complicações)

Está tudo sendo feito.
A construção está ocorrendo,
mas a voz persiste em dizer:
- É preciso virar o cesto!

Não aceito sua ordem,
me enfio em sacolas,
bolas de gude amareladas,
lenços usados para assoar o nariz,
Vou separando - aos poucos -
as reminiscências...
O cesto, quanto mais vazio,
mais pesado está.
Quanto mais leve, mais
difícil de carregar.
A voz persiste em sua sentença.

Não desobedeço à perspectiva
e decido
e aceito
virar o cesto.

A organizada comunhão se desfaz
E tudo, ao rés do chão,
se prepara para a morte.
Existe desordem, existe pó.
Mas - ironicamente - existe paz.
Uma paz.
O cesto me observa
mais leve e menos vazio.

Amanhã recomeço.