terça-feira, 4 de setembro de 2012

Futuros

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As pessoas andam viciadas em morrer. Esse é meu medo, doutor. Desde que o mundo caiu, existe essa nova crise de morte que anda por aí. No começo diziam que era bom, o senhor deve lembrar. Mas no meu tempo não existia isso! Eu bem disse para o meu marido, isso - antes - não havia. Não havia de ter. Como havia? Antes, era um tal de suicídio que começou a assolar todo mundo. A peste! Uma peste da Bobônica ou seja lá como falavam! O senhor é pai e mãe, deve saber o medo que sinto. E não sinto só pelos filhos que cuido, porque sou muito mãe. Nasci para procriar e criar e alimentar e amar. Amo os filhos e filhas do outros e outras. Amo os filhos até das namoradas e namorados do meu marido! Amo até os filhos que eles tem com seus maridos e esposas. Ora, veja isso! No tempo dos nossos pais não havia, não é? Namorados de maridos. É a mesma coisa da crise da morte! Hoje é normal. Hoje é como ir no aeroporto do bairro! Isso hoje é coisa normal, mas ora veja naquele tempo chamavam essas coisas de adultério ou traição. Chegava a dar cadeia! Tempos jurássicos, não?

O senhor está me dizendo que é ciência? Não acho, não acho, não acho. Temos mania de culpar a pobre ciência por tudo. Mas, ultimamente, até ela anda tão desacreditada, não estamos de acordo? As pessoas andam viciadas em morrer e os jornais omitem isso! Não querem fazer o povo pensar que vivemos no meio de zumbis ou coisa parecida. Como dizia minha mãe, “Deus me livre”! Deu no jornal, doutor. O corpo vai ficando mais fraco. A pessoa morre por 5 segundos e volta! É coisa possível? Dizem que a sensação é ótima. Que não tem nada parecido. O problema, doutor, é que o corpo vicia. Quer morrer toda hora. E daí, quando morre, já não tem mais surpresa de morrer. Daí quer morrer de novo. E depois, de novo. É pior que droga! Mata mais que droga! Porque: mata! Olha, como dizia minha mãe, “Deus que me perdoe”! Então a pessoa vai virando morto-vivo. Esse processo destrói as células, doutor. É coisa de outro mundo, de ficção científica. Ora, a gente diz que é coisa de jovens, mas tem até pesquisas espirituais envolvendo esse tipo de coisa, sabia? O Vaticano quer intervir em tudo...


A cidade anda uma bagunça, mesmo. Nessa de querer transformar tudo em energia, a vida acaba ficando mais curta. Não dá tempo de fazer nada! A cidade fica toda parada. Ora, ainda bem que vivemos num lugar muito civilizado, mas o senhor viu aquele povo do extremo norte? Ainda bem que conquistamos a independência, porque não estava mais dando certo aquela coisa de sotaque... Venhamos e convenhamos, que aquilo era muito feio! Mas o senhor viu no que deu? Quiseram inventar de fazer como aqui, de transformar tudo em energia. Tá certo que é o mais certo. Mas tanta gente morreu! Não dá pra ficar em casa quando tudo é arquitetado, certo? O pedreiro vai, derruba tudo, reconstrói. Fica uma fuligem que só! Aqui, ainda temos essa prefeitura que dá abrigo temporário, paga pousada, hotel. Mas e lá? Quem é que vai fazer o serviço, inclusive? Cabra homem tem de sobra pra fazer as vezes de pedreiro, mas e engenheiro? Tem algum arquiteto por lá? Eu nunca ouvi falar...


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