terça-feira, 24 de julho de 2012

Fim do mundo

Entrei na igreja da Consolação um segundo antes do mundo acabar. Muito barulho atrás de mim. Um barulho surdo, mas infernal. Os prédios derretiam e as ruas do mundo inteiro estavam se quebrando em pedra, concreto e barro. Houve barulho de carros, houve barulho de bichos e – sobretudo – houve o barulho do medo. O mundo todo morreu. (Morrer é assim?) Morrer é assim? Pensei. Passou um segundo e decidi andar. A cada passada chegava o juízo final. Os pés carregavam o peso de toda a humanidade e meu tênis macio fazia um barulho covarde. Será que eu estava no meio do caminho? De repente, sons de trombetas celestiais. Um exército de anjos à minha direita. Não tão repentino, um som de harpas tortas. Ao outro lado, um exército de anjos caídos. Genuflexei. Juntei as mãos. Fingi rezar. Apareceu o Diabo, no canto. Não falou comigo. Eu tampouco... Fiquei queitinho, só de olho. No outro canto, para minha surpresa, estava Deus. Mas sem luz, nem glória. Deus era um homem pequeno. A igreja virou o ringue daquela luta onde tudo era permitido dentro de oito quinas. E um segundo antes da luta começar, Deus me disse com a voz do capeta que os livros sagrados mal são lidos. “Ou pelo menos são mal lidos. Quem os escreve é um escriba careca que persiste em viver na terra. E que em todo Natal, ano após ano, se veste de Papai Noel e trabalha nos shoppings da capital”. 


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