sábado, 28 de abril de 2012

Sobre Deus

Deus é um homem pequeno
não tem dente branco, nem água de cheiro
Deus não tem carro importado,
castelo adornado, nem guarda segredo
Deus é um homem danado
que fala enrolado pedindo arrego
Deus me falou que a vida
É uma mexerica amadurecida
Deus me deu potes vencidos
De doces sortidos e queijos vermelhos

Deus gosta de beber vinho
Andar peladinho, passear no sereno
Deus gosta de mulher feia,
De homem, menino, de velho morrendo
Deus gosta de gente boa,
Com pressa na feira e até com caganeira
Deus não gosta de bigode
Pois acha que pelo é coisa de bicho
Deus porém ama bichinhos
Bichões e felinos, lagartos vermelhos

Deus tem livros pra caramba
Que falam de histórias e física quântica
Deus ama todos os homens
Todos os hermanos, os seres humanos
Deus não existe na vida
De quem não acredita em sua presença
Deus é um menino completo,
semi-analfabeto e de olhos vermelhos
Deus é um menino perdido
que chora escondido atrás do pau de sebo

 (Essa música faz parte do espetáculo 'Girador' do Pequeno Teatro de Torneado)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sobre o tempo (um poema para ser terminado no futuro)

Eu já pensei em tudo.
Nada será diferente.
Já pensei nos dias,
nas horas, nos sustos,
nas bocas, nos dentes...

Já até arquitetei as mortes!
 - tudo arranjado, tudo normal - 
Sem dias, sem horas,
sem sustos. Só sei do defunto
e do funeral.

(lembrar de continuar)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Foto verde na parede azul

Já não sei mais por onde eu vou descer.
Essa escada tá torta! Nem bebi
muito. Mas tá tão torta! Dá pra ver,
pelo chão, a janela que eu abri.

Tá tão torta! Que coisa sem noção!
Olho de um lado... Vejo! Não me agrada
confundir a parede com o chão.
(Pelo menos é bem iluminada!)

Tudo é marrom com verde. Ou seria
verde com marrom? É certo: a saída
existe. E, no fundo, alumia
uma luz que no chão tá refletida.

A foto verde na parede azul
é estranha. (Estranho é escrever nu!)

Farewell - trechos

3
Amo el amor de los marineros
que besan y se van.
Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.
En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.
(Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar.)

4
Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.
Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.
Amor que quiere libertar
separa volver a amar.
Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va.



Pablo Neruda

terça-feira, 10 de abril de 2012

Soneto inglês nº 1

Você se foi. Fiquei falando coisas
que você jamais vai querer ouvir.
Não houve tempo. O tempo se foi.
Não houve o tempo das coisas por vir.

E pra devolver o que eu te tirei
você se foi. Mas não foi por querer,
ou maldizer o amor que te dei.
Você se foi pra me fazer sofrer.

Você se foi de uma maneira feia
De um jeito que eu não soube lidar
Você se foi e não levou suas veias
Deixou-me, deixei-te. Irei te amar

mesmo sendo um castigo. Ah, sereia...
Você se foi. Vai me deixar na areia?

(16/02/2012)