segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Elegia invocada

(Primeiro)

É para crescer que eu faço isso
Eu não me apego
Não me afeiçoo
E eu não amo e nada me apraz
Não adianta
me vir com flores
E não me tomem por bom rapaz!
É pra morrer em paz
e pra ensinar os outros a não fazerem hora
que eu sou assim
Eu mato as coisas que eu mais amo
pra que elas vivam bem mais sem mim

(Agora)

Agora é isso
já deu a hora
- só amo as coisas
que vão embora -
Só amo as coisas
que eu não sei ter
Que eu despacho sem perceber
sua grandeza,
essa aurora...?

Só amo as coisas
que eu mando embora

(Vai-te)

Não me mande recados
Vai-te embora!
Não me faça desenhos
Vai-te embora!
Não cometa pecados
Vai-te embora!
Não me crie tormentos
Vai-te embora!
Não, não chores de noite
Vai-te embora!
Não, não chores agora
Vai-te embora!
Não me escute, sou louco
Vai-te embora!
Não, não vá mais embora
Vai-te embora!

(Carta bizantina)

Nos desertos do amor próprio, receei não pensar em nós
e com as mãos divinas em minha face
(não sei qual foi o deus que me afagou)
eu decidi, num turbilhão, esperar a calmaria,
semear os frutos loiros, brancos e puros,
leitosos...
para colher desilusão

Dentro de dezoito eras, os meus olhos cairão
Dentro de trezentos anos, nós não mais existiremos
Nos segundos, tão doirados, precedentes da morte
Eu te beijarei a alma
'Cê me busca um sorriso
A gente vê, então, com calma
Que fundamos o paraíso

Nenhum comentário: