sábado, 7 de janeiro de 2012

Rumo e trajetória

(Observem que os relatos desse tempo são raros e de difícil interpretação).

RUMO E TRAJETÓRIA
Uma rota que leva ao fim

A trajetória do ônibus não tinha alterações. O motorista 101 tinha o azar de dirigir em vias que não apresentavam problemas de tráfego. Eram três viagens diárias, contando ida e volta ao terminal de ônibus. As três consumiam, ao todo, doze horas do seu dia, mais o tempo que levava de casa até o terminal e a pausa para o almoço. Tudo era programado de uma maneira tão meticulosa que qualquer desvio das obrigações diárias resultaria numa desorganização que duraria semanas e, não raro, meses. Isso tornava inexistentes as possibilidades de desvio.

Era comum, naquele tempo, a predileção dos passageiros por alguns motoristas específicos, como o 13 e o 27 . Estes faziam as graças de atropelar cachorros, desviar da rota, estourar pneus em buracos, arremessar frutas nos carros vizinhos, dirigir sem as mãos, cortar as unhas dos pés e derrubar motoqueiros para tornar o trajeto um pouco mais agradável para aqueles que não podiam assistir televisão no trabalho. O cheiro de suor, com esses motoristas, era extremamente acentuado. Os homens mais brutos fechavam todas as janelas e faziam questão de entrarem fedidos para dar um gosto de tempero às viagens.  Mulheres, velhos e crianças iam mais próximos à porta e – muitas vezes – até conseguiam ficar pendurados do lado de fora, respeitando o assento preferencial.

Num meio dia seco - de calor e sentimento – o motorista 101 matou um passageiro. No momento em que o pneu novo de seu ônibus esmigalhou a cabeça do boliviano, foi inaugurada uma nova categoria de diversão aos passageiros e o reconhecimento nacional do motorista 101 foi questão de horas. As pessoas passavam a se jogar em frente ao seu ônibus na esperança de um pouco mais de aventura. Morrer estava na moda. A sensação de matar os passageiros era de uma gentileza sufocante, como tudo que dá prazer.

Em pouco tempo, o 27 e o 13 foram esquecidos e voltaram a ocupar o lugar de motoristas das velhas. A popularidade do 101 crescia vertiginosamente. Passaram a lhe chamar para viagens extraoficiais, para ser jurado em concursos de miss e recebeu, de duas universidades, o título de doutor Honoris Causa.

Casou, matou a esposa.
Comprou fazendas para os 17 primos.
Casou novamente, atropelou.
Comprou cabras e porcos para os 19 filhos.

Morreu em 2012.


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