sábado, 7 de janeiro de 2012

Dos abraços que dou em meu finado avô

Oi vô,

Não costumo falar muito com o senhor, para não te aborrecer. Mas esses dias bateu uma saudade tão desesperadora que eu quase ouvi a sua voz me dizendo 'vá em frente, rapaz'. Então, decidi te contar como as coisas estão indo.

Como são as coisas no além-tumulo? Não precisa responder, se não puder. Imagino que essas coisas devam ser proibidas logo assim que se chega desse lado. Não vá desrespeitar as regras, heim? Sei que o senhor foi o síndico do prédio durante muitos anos, mas o síndico do paraíso é um pouco mais velho e bravo do que o senhor. Ele também é bondoso e – provavelmente – também deve ser do Ceará.
Imagino que vocês dois devam se dar muito bem nas conversas durante o dominó.

Aqui tá tudo bem. Não se preocupe conosco. Tá difícil seguir vivendo, mas a gente tenta porque é o que tá dando pra fazer. De vez em quando vem uma vontade besta de chorar assim, do nada, só pra ter certeza de que eu ainda tô aqui. Eu chorei muito quando o senhor dormiu. Me tranquei naquele seu quarto que embalou minhas tardes solitárias durante a infância, segurei sua mão e olhei para fora da janela com a estranha sensação de um soldado raso que vê morto o seu coronel.

Quando chove, sei que o senhor tá brigando com alguém. Mas quando abre o sol, eu sinto que o senhor tá contando alguma piada sobre os bobos que ficaram aqui em baixo. Daqui a pouco estamos aí, sem brincadeira mesmo. Lembra quando eu li aquela história de amor para o senhor, no hospital? É grega. Mande recomendações para Priamo e Tisbe.

Mande recomendações, também, para todos esses que estão aí. Todos os que eu não tive tempo de conhecer muito bem, porque o senhor foi o único que eu conhecia muito bem e resolveu ficar por aí. Vó Lurdes, tio Chico, a sua mãe que trazia abacate... O pessoal todo. Aqui tá todo mundo mandando abraços e beijos, como se nos despedíssemos do senhor em uma rodoviária onde o seu ônibus está marcado para as 14h e o nosso para as 21h. Minha mãe, Mone, Vone, Tia Ione, a renca toda... O Léo, Amanda, Lucas... a renca toda... O Mateus, a Di, o Henrique... a renca toda manda beijos, abraços e saudades. Sua poltrona ainda guarda o seu cheiro! Não se preocupe.

Aliás, eu não sei se o senhor viu, mas eu ajudei a carregar o seu caixão.
No seu velório tinha muita gente. Parecia político.
E a minha vó - aquela mulher que o senhor amava e não se conversavam há quase 30 anos - jogou a última rosa no seu túmulo.

Se cuida. E eu, eu também estou morrendo... Morrendo de saudades.
Um beijo do seu primeiro herdeiro homem.
Cabra homem como o senhor me ensinou. E um futuro dotô, se o senhor quiser.


6 comentários:

saudade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diana :) disse...

Uma linda homenagem, Bruno, de verdade :')

TIA VONE disse...

Eu sei que vc tem inúmeras qualidades, mas sempre me surpreende. Eu sou mais uma que está ao meio de lágrimas recordando do seu vô e meu pai. Obrigada por mais esta homenagem. Um beijo meu querido sobrinho.

Tia Vone

Taís Caroline disse...

Choreeeei largado u_u' liindo texto, linda homenagem! Parabéns Bruno =')

Mayra disse...

Você é lindo e muito talentoso, Bruno. Acho que você sabe o quanto te admiro e o quanto dói estar longe de você. Amei o último texto.
beijos com carinho

Lívia Estrella disse...

MUITO lindo. MUITO!!!!