quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Isso é

Vai-te embora, por favor
e leva o amor que já é teu,
leva o amor que eu já te dei,
que fica acima dos mortais.

Esse amor que, eu bem sei,
vou te dar só mais e mais.

Leva tudo, por favor!
Me leve o medo e o desespero
e a vontade de chorar
que a de dormir já me levaram
e a de comer também se foi.

Isso é você. Isso é meu.

Vai-te embora, Exú!
Vai-te embora, sereia!
E me deixe aqui...

Nú,
sentado,
chorando,
perdido
na areia...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Dos abraços que dou em meu finado avô

Oi vô,

Não costumo falar muito com o senhor, para não te aborrecer. Mas esses dias bateu uma saudade tão desesperadora que eu quase ouvi a sua voz me dizendo 'vá em frente, rapaz'. Então, decidi te contar como as coisas estão indo.

Como são as coisas no além-tumulo? Não precisa responder, se não puder. Imagino que essas coisas devam ser proibidas logo assim que se chega desse lado. Não vá desrespeitar as regras, heim? Sei que o senhor foi o síndico do prédio durante muitos anos, mas o síndico do paraíso é um pouco mais velho e bravo do que o senhor. Ele também é bondoso e – provavelmente – também deve ser do Ceará.
Imagino que vocês dois devam se dar muito bem nas conversas durante o dominó.

Aqui tá tudo bem. Não se preocupe conosco. Tá difícil seguir vivendo, mas a gente tenta porque é o que tá dando pra fazer. De vez em quando vem uma vontade besta de chorar assim, do nada, só pra ter certeza de que eu ainda tô aqui. Eu chorei muito quando o senhor dormiu. Me tranquei naquele seu quarto que embalou minhas tardes solitárias durante a infância, segurei sua mão e olhei para fora da janela com a estranha sensação de um soldado raso que vê morto o seu coronel.

Quando chove, sei que o senhor tá brigando com alguém. Mas quando abre o sol, eu sinto que o senhor tá contando alguma piada sobre os bobos que ficaram aqui em baixo. Daqui a pouco estamos aí, sem brincadeira mesmo. Lembra quando eu li aquela história de amor para o senhor, no hospital? É grega. Mande recomendações para Priamo e Tisbe.

Mande recomendações, também, para todos esses que estão aí. Todos os que eu não tive tempo de conhecer muito bem, porque o senhor foi o único que eu conhecia muito bem e resolveu ficar por aí. Vó Lurdes, tio Chico, a sua mãe que trazia abacate... O pessoal todo. Aqui tá todo mundo mandando abraços e beijos, como se nos despedíssemos do senhor em uma rodoviária onde o seu ônibus está marcado para as 14h e o nosso para as 21h. Minha mãe, Mone, Vone, Tia Ione, a renca toda... O Léo, Amanda, Lucas... a renca toda... O Mateus, a Di, o Henrique... a renca toda manda beijos, abraços e saudades. Sua poltrona ainda guarda o seu cheiro! Não se preocupe.

Aliás, eu não sei se o senhor viu, mas eu ajudei a carregar o seu caixão.
No seu velório tinha muita gente. Parecia político.
E a minha vó - aquela mulher que o senhor amava e não se conversavam há quase 30 anos - jogou a última rosa no seu túmulo.

Se cuida. E eu, eu também estou morrendo... Morrendo de saudades.
Um beijo do seu primeiro herdeiro homem.
Cabra homem como o senhor me ensinou. E um futuro dotô, se o senhor quiser.


Rumo e trajetória

(Observem que os relatos desse tempo são raros e de difícil interpretação).

RUMO E TRAJETÓRIA
Uma rota que leva ao fim

A trajetória do ônibus não tinha alterações. O motorista 101 tinha o azar de dirigir em vias que não apresentavam problemas de tráfego. Eram três viagens diárias, contando ida e volta ao terminal de ônibus. As três consumiam, ao todo, doze horas do seu dia, mais o tempo que levava de casa até o terminal e a pausa para o almoço. Tudo era programado de uma maneira tão meticulosa que qualquer desvio das obrigações diárias resultaria numa desorganização que duraria semanas e, não raro, meses. Isso tornava inexistentes as possibilidades de desvio.

Era comum, naquele tempo, a predileção dos passageiros por alguns motoristas específicos, como o 13 e o 27 . Estes faziam as graças de atropelar cachorros, desviar da rota, estourar pneus em buracos, arremessar frutas nos carros vizinhos, dirigir sem as mãos, cortar as unhas dos pés e derrubar motoqueiros para tornar o trajeto um pouco mais agradável para aqueles que não podiam assistir televisão no trabalho. O cheiro de suor, com esses motoristas, era extremamente acentuado. Os homens mais brutos fechavam todas as janelas e faziam questão de entrarem fedidos para dar um gosto de tempero às viagens.  Mulheres, velhos e crianças iam mais próximos à porta e – muitas vezes – até conseguiam ficar pendurados do lado de fora, respeitando o assento preferencial.

Num meio dia seco - de calor e sentimento – o motorista 101 matou um passageiro. No momento em que o pneu novo de seu ônibus esmigalhou a cabeça do boliviano, foi inaugurada uma nova categoria de diversão aos passageiros e o reconhecimento nacional do motorista 101 foi questão de horas. As pessoas passavam a se jogar em frente ao seu ônibus na esperança de um pouco mais de aventura. Morrer estava na moda. A sensação de matar os passageiros era de uma gentileza sufocante, como tudo que dá prazer.

Em pouco tempo, o 27 e o 13 foram esquecidos e voltaram a ocupar o lugar de motoristas das velhas. A popularidade do 101 crescia vertiginosamente. Passaram a lhe chamar para viagens extraoficiais, para ser jurado em concursos de miss e recebeu, de duas universidades, o título de doutor Honoris Causa.

Casou, matou a esposa.
Comprou fazendas para os 17 primos.
Casou novamente, atropelou.
Comprou cabras e porcos para os 19 filhos.

Morreu em 2012.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Desesperança

Por maus bocados
eu já passei
Mas esse, hoje,
vai me matar

Hoje não vivo
com um pra sempre.
Hoje eu me mato
de procurar.

Talvez o longe
me espere, então.
Com uma coberta
e um violão.

Eu vou ninar
suas crianças.
Mas eu só canto
desesperanças.