domingo, 24 de abril de 2011

Quem é você?

São Paulo, 24 de abril de 2011.



Sílvio,

Fiquei sabendo que você morreu. Você não sabe o quanto me apertou o peito saber que o mago dos meus sonhos estava deitado e dormindo profundamente. Você não sabe o quão difícil foi aceitar a sua morte prematura e desconhecida. Saber que as pessoas que circundavam seu caixão eram em número inferior do que aquelas que você havia impressionado com a sua capacidade de contar histórias.

Ouvi dizer, amigo Sílvio, que os africanos mais antigos se sentavam em rodas para contar histórias. Os mais jovens e menos vividos tampavam o ouvido esquerdo para que as histórias de seus ancestrais ficassem gravadas nas suas mentes. Dessa forma, seríamos cada vez mais uma mistura de nós com os outros. Saber da sua morte foi o destampar de um dos lados da minha cabeça. Foi a personificação do medo da morte.

Você, tão frágil e lindo, como o zoológico de vidro da Laura, foi perdido em atabaques, dançando passos que representam a síndrome de uma vida que se esvai. Dançando o ritmo dos passos que o nosso amigo Mingo foi tocando até você, numa outra lufada de vida que levou mais um amigo nosso. Pensei tanto na morte de vocês... Pensava em vocês como sábios ou como mortos. E vocês atenderam às duas expectativas.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Dez paredes por minuto

"Dez paredes por minuto" era o slogan de José, o pedreiro mais cotado do mercado. Outros pedreiros se gabavam de fazer o melhor cimento ou de escolher os melhores tijolos segundo a lógica do feng shui, mas ninguém levantava paredes com a habilidade, maestria e segurança de José. Tentavam, sem sucesso, desbancar sua capacidade colocando para José desafios de levantar paredes com os mais diversos tipos de tijolo - inclusive os redondos! E a fama de José continuava intransponível e impermeável como suas paredes. Quando bêbado, José era até capaz de levantar as paredes sem o tijolo estar pronto.

O interesse por tijolos apareceu quando ainda era um feto. A mãe, gestante dele, preferia comer terra do que outros organismos. Desde aí, o pequeno feto-José foi se apaixonando pela arte de construir paredes, como aquela que construiu dentro da barriga da mamãe. O pai de José, homem de escolhas literárias, ficou decepcionado com a vocação do filho pela arte de levantar muros. Ainda tentou convencer o pequeno Joselito a se interessar em construir muros poéticos ou até mesmo criar lajes com o concreto de palavras desconexas, mas José era um concretista prático.

José ria do concreto poético e criava retas imaginando o momento em que elas se encontrariam no infinito.