quarta-feira, 24 de novembro de 2010

- São quantos quilos?

Eram dois e ele já sabia. Só continuava a perguntar, discretamente, por trás dos óculos, para que a moça do açougue lhe respondesse. Timidozinho, como desses cachorros que têm vergonha de pedir, ele acrescentava cebolinha ao pedido, depois farofa – um de cada vez - só para ver a rapariga de branco ir pegar o pacote e colocá-lo no balcão de madeira pintada. Mas ele não a olhava, nem um pouco, só com receio de que alguém o visse-olhando para as coxas de frango dela.

Ela, um pouco mais velha, com dois peitinhos que nasciam, discretos, debaixo da camisa branca, já parecia uma mulher dessas que andam com dinheiros na carteira e na bolsa de lado. Ele sabia isso de ouvir dos outros homens, - do bar e da farmácia - que a vergonha talvez fosse grande demais. Na verdade, nem tinha certeza se já a tinha conseguido ver por completo, mas quem é que já conseguiu ver alguém inteiramente?

Todo dia ele tentava vê-la. Nada.

O pai, de bigode forte, havia morrido há pouco tempo. Tão pequena, já cortava carnes e lidava com facas. Cortava nervos pela ponta. De tanto ver, foi aprendendo e mesmo antes de nascer, já tinha pratica acumulada e experiência transbordando. Na junta da carne, acertava a machadada como ninguém e fazia jorrar um sangue que nem ele mesmo sabia de onde vinha! E nas juntas dos dedos, possuia menos delicadeza do que músculos e dobras. O vermelho respingado na camisa branca fazia com que ele se lembrasse de limpar os pratos e lavar os copos. Caiam pesados e duros de pedaços de carne sobre a bandeja da balança.

Ele talvez nunca tenha reparado, mas ela possuía olhos verdes. Ninguém, na verdade, talvez houvesse. Talvez nem ela, já que lá dentro os espelhos eram embaçados de gordura animal.

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