quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Meu coração não bate bem (ou Teorema da quarta batida)

E toda minha preocupação começou numa visita ao médico, o que é triste porque na minha idade visitas ao médico deveriam ser, no mínimo, monótonas. A doutora, como assim chamamos, colocou o estetoscópio no meu peito, ficou um tempo em silêncio e sentenciou que meu coração não batia de um jeito comum. Eu tinha uma batida própria. Uma batida a mais. Ela imitou o barulho de um coração normal e este tinha uma batida forte e duas fracas. Ela imitou a minha batida e eu só consegui entender que tinha uma batida intermediária colocada no meio, o que me dava quatro batidas.

Fiquei criando possibilidades e teorias sobre a quarta batida.

Pensei que a vida das pessoas era divida em três partes; quatro pernas, duas pernas, três pernas. Nesse caso, as três batidas e as três partes da vida fariam um paralelo rumo ao infinito que levaria aquelas almas para o paraíso. Então, como eu teria uma quarta batida, minhas quatro batidas iriam andar na frente das três partes da vida, que fariam eu apodrecer mais rápido do que o normal. Assim, talvez, eu morresse antes das três pernas.

Muitos médicos me disseram que nenhum coração é igual ao outro e que nenhum coração é perfeito. Ora, se não encontraram um coração perfeito, como podem imaginar a existência de um?

Acho que nunca procurei fazer esses exames por achar bonito demais ter um coração que bate descompassado e temer ficar com batidas comuns. Se for assim e eu morrer antes da hora, terei uma justificativa para a minha rala sabedoria.

A sabedoria só iria me agraciar quando eu tivesse uma bengala e muita história pra contar.