segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sem destinatário

Olá,

São Paulo está um frio medonho, não acha?
Encontrei uma máquina de escrever antiga debaixo da cama do meu avô e achei que seria interessante te escrever uma carta. Perdoe os erros de concordância e de digitação, ainda estou me familiarizando com esse tipo de tecnologia. Caso ache minha carta desinteressante, não precisa ler até o fim. Dobre esse papel e esconda em alguma gaveta. Quem sabe, talvez, daqui alguns anos, você não o abra durante uma mudança? Talvez faça um sentido maior.

Outro dia, aprendi a fazer café. Não que eu já não soubesse manipular uma cafeteira. Eu sei, sim. Juro pra você! Na verdade, aprendi a fazer café com aqueles coadores antigos, sabe? Aqueles de pano que parecem calcinhas velhas. Todos dizem que o gosto naquele tipo de coador fica melhor. Eu também achei. Deve ser pelo fato de conter algum germe especial ou o pano exercer alguma reação química que fermente o pó, assim como acontece com os vinhos. Não sei bem ao certo, mas quem disse que precisamos entender das coisas para gostarmos delas?

Esses dias tentei desenhar o seu rosto. Não sou muito bom com o grafite, você sabe. Lembra de quando tentávamos desenhar os homens jogando bilhar no bar da esquina? Transbordávamos em risadas inocentes ao ver nossa obra de arte e faziamos com que nossos copos de cerveja esquentassem. Nos esquecíamos de beber, lembra? Os homens de braços gordos e corpos peludos nos olhavam com estranheza e tudo que podíamos pensar é 'que nada!'. Pensei que aqueles momentos fossem durar eternamente em algum espaço-tempo paralelo. Você entende algo de física quântica? Na física quântica esse tipo de coisa pode acontecer, sabia? Não sei falar muito bem, mas gosto de pensar nisso.

Bom, voltando ao assunto do desenho... Eu acho que as pessoas com mais jeito para essas coisas artísticas não pensam, mas criam quadros dentro da sua cabeça. Entende mais ou menos o que eu quero dizer? Acho que a pessoa precisa raciocinar colorido. Precisa de um tipo de memória que não se restringe às palavras. Uma memória aonde os quadros também são importantes. Cheguei a essa conclusão por que comecei a esquecer do seu rosto. Não me leve a mal, não sou tão sensível quanto você pensa. Não é maldade minha. É que seu rosto não me queimou por dentro, sabe?

Todos os dias eu tento desenhar seu rosto com palavras. Acho que só é dessa forma que eu raciocino. Eu juro que estou tentando desenvolver essa capacidade de pensar sem usar palavras, mas ainda acho um pouco difícil. E com esse frio, minha mente parece querer trabalhar em velocidade reduzida. Desculpe.

Tudo está passando muito rápido e eu não tenho tempo de lhe contar todas as novidades. Mas estou feliz. Alguma coisa está acontecendo e eu não sei explicar direito o que é. Você sempre me tem algo tão interessante para falar em momentos assim! Gostaria que pudesse me desejar alguma coisa.

Bom, preciso ir.
São Paulo está um frio medonho, mas e você?

Se eu soubesse, te desenharia o que estou sentindo. Por enquanto, só posso escrever:
Saudades.

4 comentários:

Diva 30 Anos disse...

caraca, não é que teu texto é bom?

cada tem sua forma de expressar!
eu às vzs escrevo, às vzs canto...

gostei bastante!

http://discoreba.blogspot.com

Pedro disse...

Gostei =D

Mariane Lobo disse...

Gostei do texto, seu modo de escrever é muito legal mesmo :D

Carol disse...

São Paulo esquentou... e você?

Muito bom, cara :)