terça-feira, 10 de agosto de 2010

Dia dos Pais

O dia dos pais já passou e eu, mais uma vez, deixei para trás um texto que tinha vontade de produzir no dia. Sabe como é, sendo quem sou, fica difícil de cumprir os prazos que estabeleço comigo mesmo. Naquele dia, não pude vê-lo. Não foi um dia diferente dos muitos outros da minha vida em que não o vi, mas tive uma vontade especial de escrever algumas linhas para ele nesse dia de tantos outros pais.

Lembro de um dia quando tinha oito anos, logo após o divórcio dele e da minha mãe, em que ele me levou à igreja no segundo domingo de agosto. Imagino que fazia isso só para que eu não perdesse os costumes da época em que ele e minha mãe eram casados, por quê há muito tempo não o via na igreja, que ficava tão longe de nossa casa. Por aquele tempo, eu ainda nutria o débil sonho de ser cantor e, mais débil ainda, o sonho de que meus pais voltassem a ficar juntos, para que pudessemos voltar à igreja como uma família normal. Mas naquele domingo de dia dos pais deixei isso de lado, por que eu tinha uma surpresa para ele.

Junto com as outras crianças da escola dominical, combinei de que cada um levaria uma peça de roupa de seu pai e que, juntos, cantaríamos uma canção surpresa para eles. Escondido, e com a ajuda de um primo mais velho, consegui raptar uma gravata e um paletó do meu pai. Ensaiamos a música durante semana a fio para que, naquele dia, tudo saísse perfeito para os nossos genitores. Ficamos escondidos e encolhidos na nossa banguelice atrás do palco e, após sermos anunciados pelas tias da escolinha, entramos. Risadas e fotografias dispararam, mas meu pai, como sempre, não tinha uma máquina para registrar aquele momento, só mantinha o sorriso e os olhos que me captavam mais do que qualquer fotografia.

Enchemos as nossas pequenas caixas toráxicas e começamos a cantar, um tanto desafinados, aquela musiquinha que até hoje canto baixinho nos dias dos pais. Lembro que meus olhos se encheram de lágrimas de emoção pela primeira vez na vida. Estranhei um pouco essa coisa de chorar sem sentir dor. Sem sentir dor física. Não sei se estava triste vendo meu pai sozinho sem a minha mãe ou se por estar sozinho, ali em cima do palco, vestido de meu pai. Toda a minha vida eu tentei imitá-lo nas fotos, no jeito de falar, de olhar e de vestir e ali estava eu, sendo meu pai no meio de muitas crianças. Talvez estivessemos os dois sozinhos, ele sem o amor da mulher e eu sem o do meu pai. Mas continuavamos sorrindo um para o outro, como amigos. Eu o encorajando a seguir vivendo e ele me encorajando a seguir cantando.


Querido pai
És grande pra mim
Foi Deus quem te criou
E agora eu canto assim

A crescer você me ajudou
Me ensinou até a andar
Você faz parte do meu coração

Pai, nunca esquecerei do seu amor
Deus foi muito bom e te criou
Pra minha vida completar

Pai, nem tenho palavras pra dizer
Só posso cantar o meu amor
Por Deus e por você



Um comentário:

Dani Vipo ® disse...

Impecável, Bruno (lágrima nos olhos)!
Que linda costura de palavras que fizestes (!) e que resultou em um tecido, o mais caro (e ninguém no mundo poderá pagar por ele), e mais belo: o Amor.