terça-feira, 24 de agosto de 2010

Velharias

(30/05)
Você parece estar sempre por perto. Nem parece que tudo acabou. Em todas as frestas da minha vida existe um rastro da sua existência, da sua memória. Me pego pensando sobre o tempo. Para onde vão as coisas que experimentamos viver? Em lugar físico fica guardado o tempo? Queria eu poder pegar todos aqueles momentos e colocá-los dentro de uma caixa para rememorá-los, como a um álbum de fotos, mas ali, de verdade, de carne e osso – mesmo que em carne e osso de ilusão.


(15/06)
Hoje o dia termina mais cedo.
Talvez enrolando um cigarro de alma
E queimando as frustrações que ficam,
Talvez assim,
Eu termine mais cedo também.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sem destinatário

Olá,

São Paulo está um frio medonho, não acha?
Encontrei uma máquina de escrever antiga debaixo da cama do meu avô e achei que seria interessante te escrever uma carta. Perdoe os erros de concordância e de digitação, ainda estou me familiarizando com esse tipo de tecnologia. Caso ache minha carta desinteressante, não precisa ler até o fim. Dobre esse papel e esconda em alguma gaveta. Quem sabe, talvez, daqui alguns anos, você não o abra durante uma mudança? Talvez faça um sentido maior.

Outro dia, aprendi a fazer café. Não que eu já não soubesse manipular uma cafeteira. Eu sei, sim. Juro pra você! Na verdade, aprendi a fazer café com aqueles coadores antigos, sabe? Aqueles de pano que parecem calcinhas velhas. Todos dizem que o gosto naquele tipo de coador fica melhor. Eu também achei. Deve ser pelo fato de conter algum germe especial ou o pano exercer alguma reação química que fermente o pó, assim como acontece com os vinhos. Não sei bem ao certo, mas quem disse que precisamos entender das coisas para gostarmos delas?

Esses dias tentei desenhar o seu rosto. Não sou muito bom com o grafite, você sabe. Lembra de quando tentávamos desenhar os homens jogando bilhar no bar da esquina? Transbordávamos em risadas inocentes ao ver nossa obra de arte e faziamos com que nossos copos de cerveja esquentassem. Nos esquecíamos de beber, lembra? Os homens de braços gordos e corpos peludos nos olhavam com estranheza e tudo que podíamos pensar é 'que nada!'. Pensei que aqueles momentos fossem durar eternamente em algum espaço-tempo paralelo. Você entende algo de física quântica? Na física quântica esse tipo de coisa pode acontecer, sabia? Não sei falar muito bem, mas gosto de pensar nisso.

Bom, voltando ao assunto do desenho... Eu acho que as pessoas com mais jeito para essas coisas artísticas não pensam, mas criam quadros dentro da sua cabeça. Entende mais ou menos o que eu quero dizer? Acho que a pessoa precisa raciocinar colorido. Precisa de um tipo de memória que não se restringe às palavras. Uma memória aonde os quadros também são importantes. Cheguei a essa conclusão por que comecei a esquecer do seu rosto. Não me leve a mal, não sou tão sensível quanto você pensa. Não é maldade minha. É que seu rosto não me queimou por dentro, sabe?

Todos os dias eu tento desenhar seu rosto com palavras. Acho que só é dessa forma que eu raciocino. Eu juro que estou tentando desenvolver essa capacidade de pensar sem usar palavras, mas ainda acho um pouco difícil. E com esse frio, minha mente parece querer trabalhar em velocidade reduzida. Desculpe.

Tudo está passando muito rápido e eu não tenho tempo de lhe contar todas as novidades. Mas estou feliz. Alguma coisa está acontecendo e eu não sei explicar direito o que é. Você sempre me tem algo tão interessante para falar em momentos assim! Gostaria que pudesse me desejar alguma coisa.

Bom, preciso ir.
São Paulo está um frio medonho, mas e você?

Se eu soubesse, te desenharia o que estou sentindo. Por enquanto, só posso escrever:
Saudades.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Dia dos Pais

O dia dos pais já passou e eu, mais uma vez, deixei para trás um texto que tinha vontade de produzir no dia. Sabe como é, sendo quem sou, fica difícil de cumprir os prazos que estabeleço comigo mesmo. Naquele dia, não pude vê-lo. Não foi um dia diferente dos muitos outros da minha vida em que não o vi, mas tive uma vontade especial de escrever algumas linhas para ele nesse dia de tantos outros pais.

Lembro de um dia quando tinha oito anos, logo após o divórcio dele e da minha mãe, em que ele me levou à igreja no segundo domingo de agosto. Imagino que fazia isso só para que eu não perdesse os costumes da época em que ele e minha mãe eram casados, por quê há muito tempo não o via na igreja, que ficava tão longe de nossa casa. Por aquele tempo, eu ainda nutria o débil sonho de ser cantor e, mais débil ainda, o sonho de que meus pais voltassem a ficar juntos, para que pudessemos voltar à igreja como uma família normal. Mas naquele domingo de dia dos pais deixei isso de lado, por que eu tinha uma surpresa para ele.

Junto com as outras crianças da escola dominical, combinei de que cada um levaria uma peça de roupa de seu pai e que, juntos, cantaríamos uma canção surpresa para eles. Escondido, e com a ajuda de um primo mais velho, consegui raptar uma gravata e um paletó do meu pai. Ensaiamos a música durante semana a fio para que, naquele dia, tudo saísse perfeito para os nossos genitores. Ficamos escondidos e encolhidos na nossa banguelice atrás do palco e, após sermos anunciados pelas tias da escolinha, entramos. Risadas e fotografias dispararam, mas meu pai, como sempre, não tinha uma máquina para registrar aquele momento, só mantinha o sorriso e os olhos que me captavam mais do que qualquer fotografia.

Enchemos as nossas pequenas caixas toráxicas e começamos a cantar, um tanto desafinados, aquela musiquinha que até hoje canto baixinho nos dias dos pais. Lembro que meus olhos se encheram de lágrimas de emoção pela primeira vez na vida. Estranhei um pouco essa coisa de chorar sem sentir dor. Sem sentir dor física. Não sei se estava triste vendo meu pai sozinho sem a minha mãe ou se por estar sozinho, ali em cima do palco, vestido de meu pai. Toda a minha vida eu tentei imitá-lo nas fotos, no jeito de falar, de olhar e de vestir e ali estava eu, sendo meu pai no meio de muitas crianças. Talvez estivessemos os dois sozinhos, ele sem o amor da mulher e eu sem o do meu pai. Mas continuavamos sorrindo um para o outro, como amigos. Eu o encorajando a seguir vivendo e ele me encorajando a seguir cantando.


Querido pai
És grande pra mim
Foi Deus quem te criou
E agora eu canto assim

A crescer você me ajudou
Me ensinou até a andar
Você faz parte do meu coração

Pai, nunca esquecerei do seu amor
Deus foi muito bom e te criou
Pra minha vida completar

Pai, nem tenho palavras pra dizer
Só posso cantar o meu amor
Por Deus e por você



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Eu sempre quis ser um ídolo do rock.

Sempre brinco: Eu faço teatro por que sou um músico frustrado. E talvez realmente o seja:

Quando estou sozinho em casa, o que impera sonoramente é a minha playlist 'masterpieces - rock'. Se as pessoas precisam de rituais para alcançar um grau mais elevado de espiritualização, esse talvez seja um dos meus. Parece que algo toma conta de mim, e não sei muito bem explicar o que é. Como se me desse uma vontade de deixar tudo pra trás, entrar dentro de um ônibus velho com um bando de gente louca, feia e fedida em busca de uma platéia desconhecida.
Criando riffs inesquecíveis, criando letras que falassem de amor, de ódio, de física quântica e tudo embalado ao som de uma Fender. Ao lado de uma Marshall que iria expressar as batidas do meu coração e o drive da minha guitarra seria a voz rouca de meus dedos tortos.
Todos os dias, meu café da manhã sendo champagne com ovos fritos e uma cartela de aspirina.
Minhas letras sendo cantadas por gerações e gerações de fãs que contariam aos seus netos sobre como foi aquela vez em que o Bruno deu um mosh que fraturou a costela de um, ou daquela vez em que o Bruno saiu deslizando de joelhos mais de 8 metros pelo palco enquanto fagulhas estouravam nas suas costas e o público pegava fogo aclamando, ao ouvir a última nota de sua guitarra: BIS! BIS!
E lá em cima, estaria eu. Destemido e desbravador, com uma boa voz e dedos ligeiros. Seria o ícone de muitos jovens que iriam chorar, mais tarde, a minha morte prematura.

Talvez eu goste muito de viver.

Não sou eu