segunda-feira, 26 de julho de 2010

Poemito

Poesia sf. 1. Arte de escrever em verso. 2. Poema.
Poema sm. Composição em verso
Verso sm. Cada uma das linhas de um poema

Dicionários nada sabem
de poesia, nem de poema,
nem de verso.

O dicionário sabe um tudo,
mas o tudo que diz
é inverso.

Nimbus

Eu ousei inventar o maior de todos os amores. Numa tarde de sol escondido, as nuvens brancas que entapetavam o céu de São Paulo me faziam sentir flutuando solitário no meio dos ursinhos camuflados de algodão-doce. Lá em cima, confortável na minha incredulidade de 'como consegui chegar até aqui?'. Flutuando nú e livre por cima de todas as cabeças que procuravam soluções para probleminhas gostosos de criar. E eu estaria bem.
E eu poderia saborear o abobado momento de conhecer.
Lá em cima. Foi lá em cima que te conheci. No meio dos meus usinhos e jacarés de nuvens brancas, te conheci montada num para-raio. Fui descendo aos poucos, sem cair nem despencar. Fui desmoronando até você. Tentei te encaixar na minha pequena e humilde nuvem, mas não havia espaço para mais de uma solidão. Como um louco ensandecido por conforto passei a me agarrar em outros para-raios, mas estava demais no alto. Pedi para que um trovão de acertasse, afim de morrer quando tocasse o chão. Assim, o meio-termo seria o encontro com os braços do teu para-raio. E foi o que eu fiz.
Espedacei-me num trovão, mas este, bobinho, não me matou. Ao contrário. Sua descarga energética me jogou para longe, para a terra do chão. Lá eu pisei num gramado de concreto e olhei para cima em busca do para-raio em que você estava. Busquei os quatro cantos dessa cidade ou vila para poder te dedicar a flor de algodão-doce que eu havia colhido de lá cima. Mas você, semideusa que era, não se ateve aos pedidos desse coitado. Como quem corta carnes com um machado demais amolado, despedaçou minha rosa branca e transformou-a em chaga que colocou em meu peito.
Meu peito inflou. Inflamou. Ressubi aos céus, exasperado. Ganhava contornos de pássaro-raio e alcançava os céus com a velocidade de um bípede em frente a morte. Passei por você como um raio descontrariado de suas influências e fui habitar no reino das nuvens-chuva, tentando acertar teu peito de alumínio, que alcançasse teu coração de metal e teu amor de ferro. Eu ousei inventar o chumbo bruto.
Na solidão das nuvens úmidas desenhei-te uma rosa negra, da qual chamei 'Nimbus'.


terça-feira, 20 de julho de 2010

Três quartos de um jovem

Antes de entrar em casa, ele tinha o costume de tirar os sapatos. Entrou no seu quarto, jogou sua mochila num canto qualquer, retirou a camisa, o jeans, as meias e permaneceu apenas com as cuecas esgarçadas enquanto olhava pela janela. As roupas, bagunçadas e dispostas assimetricamente pelo quarto, lhe davam a sensação de prazer. De aconchego.
Qualquer um que visse a situação daquele quarto o chamaria de porco, desleixado, desorganizado. Na verdade aquilo era só uma forma de passatempo. Assim, ele passaria mais tempo procurando a si mesmo dentre a grande quantidade de meias, papéis e livros que estavam caídos pelo chão.
No caminho de casa havia pensado num texto. Ou em uma poesia. Mas, como sempre, seus dedos não obedeciam os pensamentos criativos, por que a mente estava demasiadamente ocupada com algum amor platônico que ele criava para distrair as tardes monótonas.
Então, ainda olhando a janela, ele decidiu fazer poesia com a vida.
Sorriu e foi dormir.

domingo, 18 de julho de 2010

Auto-retrato

Minha vida é um passo torto
É suspiro sufocado
Eu sou de poucas palavras
Mas de muito sentimento
Com o sorriso humilde
E com o olhar bonito
Eu lhe digo; o meu silêncio
É tentativa de grito

Prazer.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

prosa dificil

como nao bastasse a vergonha pela situacao, o corpo lhe insistia em denunciar o estado sentimental. parecia uma soma de multiplas reacoes que insistiam em transformar em imagem crua todas as suas mais complexas sentimentalidades. fosse mais ingenuo do que imaginava ou fosse sua criatividade tao aflorada, mas era fato que conseguia criar possibilidades de refugio dos seus pensamentos e ambicoes.

as propriedades da alma lhe eram tao parcas que conseguia e tentava criar situacoes para que vivendo seguisse. como nao fosse suficientemente humano para poder encontrar o defeito nas coisas, projetava seus proprios defeitos - os mais fáceis de enxergar - nas coisas alheias e assim conseguia se tornar um pouco comum.

o corpo tremia e a voz parecia sair em blocos de palavras desconexas. o coracao disparava e os pensamentos nao lhe eram proprios. era como se algo alem da sua fraca realidade lhe transformasse em algo que ele nao tinha controle. era como se seus membros, se sua carne, nao lhe obedecessem os comandos e tudo aquilo que lhe rodeasse fosse a representacao de tudo que significa a entrada para os seus pensamentos obscuros.
de fato, a situacao era um acumulo de energias estranhas. desafinadas.

seja, talvez, a vida algo muito previsivel! sendo assim acreditava que fosse necessario criar realidades paralelas onde os fatos sao tao concretos que sao impossiveis de ser modificados. mas lidar com a possibilidade do diferente ponto de vista é criar o fato distorcido da sua realidade concreta, mas capaz de nos fazer mais confortaveis com a vida.

para viver dentro dessa vida sépia precisamos criar realidades paralelas.
distrações.
mentirinhas gostosas.