segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ensaio sobre o cavalheirismo

Hoje uma garota me fez uma pergunta um pouco invasiva e preconceituosa. Após a minha resposta fui chamado de ‘mal educado’ e minha atitude de ‘grosseira’. Acho extremamente difícil que eu consiga ofender uma pessoa com as minhas observações. Juro que não achei a minha resposta grosseira e fiquei imaginando que essa reação só ocorreu por que a resposta foi para uma garota. Na hora não me exaltei e perguntei como deveria ser feita a minha réplica, ao passo de que ouvi:

- Seja cavalheiro.

Nessa hora me contive e realmente me calei. Preferi não responder novamente para não começar um desentendimento, uma briga ou pior; perder o jogo do Brasil.

Não sei se já cheguei a comentar a minha aversão ao cavalheirismo. Tá certo, muitos vão dizer que é por preguiça, que ‘não se fazem mais homens como antigamente’, que eu sou um lesado e que eu não valho nada. Tá certo novamente que eu, provavelmente, concordo em partes com essas afirmações (principalmente as que me ofendem), mas não posso deixar de demonstrar o meu repúdio ao cavalheirismo.

As mulheres lutaram por um espaço na sociedade. Precisaram lutar pelo direito à ação e à opinião. Hoje estamos num momento em que a posição da mulher ainda não é totalmente planificada com relação à posição masculina, mas estamos lutando para que isso aconteça. E quando alguém pede para que eu seja cavalheiro com uma moça, simplesmente me pergunto se essa moça fica feliz por eu tratá-la diferente somente pelo fato de ela ser mulher.

Claro que muitas meninas irão gostar; ser bem tratado é um principio que costuma agradar as pessoas. Mas ser bem tratado por obrigação – para se enquadrar nos moldes – me parece ser uma relação falsa dentro de uma estrutura bem resolvida.

Imagino o cavalheirismo como um machismo bem educado.
É como se fosse o momento em que o homem exerce o papel de herói ante a figura frágil e delicada da donzela. Não sou contra a boa educação, mas realmente me preocupa que tantas pessoas ainda possuam esse tipo de pragmatismo perante a figura masculina. Acho que precisamos planificar as relações e entender-nos como seres humanos, mas não como gêneros distintos de ‘homem’ e ‘mulher’. Entendo a separação nos banheiros de padaria, mas não a separação no dia-a-dia.

Isso não significa que não pagarei uma conta para uma namorada, que não abrirei a porta do carro para uma amiga ou que não darei um presente para minha mãe em seu aniversário. Isso significa que não farei dessas coisas uma obrigação, por que é insuportável a idéia de ser bem tratado falsamente. Significa que farei esses gestos para qualquer pessoa, tanto homens quanto mulheres, por que respeito e humildade são conceitos (e não o que vem antes deles). Esses pequenos gestos acabam gerando uma inversão de valores onde o homem eleva a figura da mulher somente para se auto-afirmar.

Afinal, dentro de uma sociedade que – ao menos parece – tentar se livrar dos preconceitos que carregávamos, uma atitude humilde será sempre olhada com bons olhos. A questão é; é mais egoísta o homem que se eleva ou a mulher que se aproveita de sua condição histórica sem protestar as suas regalias?

Bons tempos de outrora...

Enquanto vocês pensam vou ligar a cobrar para uma gatinha e perguntar se ela não quer pagar o meu cinema...

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