quarta-feira, 30 de junho de 2010

Antropo-inverso

O índio espertinho
Matou o estrangeiro
Comeu sua carne
E morreu de velhice

sem nenhuma aventura
e sorrindo da saudade

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ensaio sobre o cavalheirismo

Hoje uma garota me fez uma pergunta um pouco invasiva e preconceituosa. Após a minha resposta fui chamado de ‘mal educado’ e minha atitude de ‘grosseira’. Acho extremamente difícil que eu consiga ofender uma pessoa com as minhas observações. Juro que não achei a minha resposta grosseira e fiquei imaginando que essa reação só ocorreu por que a resposta foi para uma garota. Na hora não me exaltei e perguntei como deveria ser feita a minha réplica, ao passo de que ouvi:

- Seja cavalheiro.

Nessa hora me contive e realmente me calei. Preferi não responder novamente para não começar um desentendimento, uma briga ou pior; perder o jogo do Brasil.

Não sei se já cheguei a comentar a minha aversão ao cavalheirismo. Tá certo, muitos vão dizer que é por preguiça, que ‘não se fazem mais homens como antigamente’, que eu sou um lesado e que eu não valho nada. Tá certo novamente que eu, provavelmente, concordo em partes com essas afirmações (principalmente as que me ofendem), mas não posso deixar de demonstrar o meu repúdio ao cavalheirismo.

As mulheres lutaram por um espaço na sociedade. Precisaram lutar pelo direito à ação e à opinião. Hoje estamos num momento em que a posição da mulher ainda não é totalmente planificada com relação à posição masculina, mas estamos lutando para que isso aconteça. E quando alguém pede para que eu seja cavalheiro com uma moça, simplesmente me pergunto se essa moça fica feliz por eu tratá-la diferente somente pelo fato de ela ser mulher.

Claro que muitas meninas irão gostar; ser bem tratado é um principio que costuma agradar as pessoas. Mas ser bem tratado por obrigação – para se enquadrar nos moldes – me parece ser uma relação falsa dentro de uma estrutura bem resolvida.

Imagino o cavalheirismo como um machismo bem educado.
É como se fosse o momento em que o homem exerce o papel de herói ante a figura frágil e delicada da donzela. Não sou contra a boa educação, mas realmente me preocupa que tantas pessoas ainda possuam esse tipo de pragmatismo perante a figura masculina. Acho que precisamos planificar as relações e entender-nos como seres humanos, mas não como gêneros distintos de ‘homem’ e ‘mulher’. Entendo a separação nos banheiros de padaria, mas não a separação no dia-a-dia.

Isso não significa que não pagarei uma conta para uma namorada, que não abrirei a porta do carro para uma amiga ou que não darei um presente para minha mãe em seu aniversário. Isso significa que não farei dessas coisas uma obrigação, por que é insuportável a idéia de ser bem tratado falsamente. Significa que farei esses gestos para qualquer pessoa, tanto homens quanto mulheres, por que respeito e humildade são conceitos (e não o que vem antes deles). Esses pequenos gestos acabam gerando uma inversão de valores onde o homem eleva a figura da mulher somente para se auto-afirmar.

Afinal, dentro de uma sociedade que – ao menos parece – tentar se livrar dos preconceitos que carregávamos, uma atitude humilde será sempre olhada com bons olhos. A questão é; é mais egoísta o homem que se eleva ou a mulher que se aproveita de sua condição histórica sem protestar as suas regalias?

Bons tempos de outrora...

Enquanto vocês pensam vou ligar a cobrar para uma gatinha e perguntar se ela não quer pagar o meu cinema...

domingo, 27 de junho de 2010

Alegra-te hoje

Alegra-te hoje!
O sol nasceu
e o mundo sorriu.
O mau tempo acabou
e tudo passou.
Não está tão bom...
Mas não piorou.

Alegra-te hoje,
pois não somos os mesmos.
O caminho mudou,
nossa voz engrossou.
Nosso seio cresceu
e iremos viver.
E também entender
que: nem tudo é nosso.
Que: nem tudo é belo.
Que: nem tudo é fato.
E que não há prazer.

Alegra-te, hoje!
Pois ainda nascem bebês
e ainda morrem os velhos.
Mas ainda criamos sonhos
e cultivamos promessas.

Alegra-te hoje
que a sua lagrima salgada
tem um... recurso de saudade
que lapida o sentimento
em busca da... bruta pedra...
Que chamamos de
amor?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Beleza Leviana

Estou oco, vazio
Não consigo compor
Não farei crises brilhantes
Não sei mais viver o amor

Estou seco e hirto
Versos duros, com cadência, sem paixão
Só vim aqui, digo e repetirei
Para uma constatação:

Não sinto falta de amigos,
Nem de sorrisos, nem de momentos
Eu quero a chaga, o castigo,
A beleza dos sofrimentos

Venho, por meio desta
Repetir a observação
Procuro dores gratuitas, o tumor de uma paixão,
A antítese da cura, que de tão seca e dura
Brotará em evolução

Sem histórias belas.
Sem juízo de valor.
Não quero amores fáceis.
Não quero o torpor.
Não quero o infértil.
Não quero a libido.
Não acho graça na loucura, tampouco no proibido.

Ando sorrindo muito e ando tendo muito prazer
Não conhecerá a dor do outro
Quem não amar o seu sofrer

Ou quem não descobrir sozinho
Sem muletas, sem temer
A beleza leviana
dos que morrem pra viver

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Dificuldades de raciocínio

Sou um ser tentante.
Todos os dias eu tento me colocar em xeque. Estou sempre em busca de alguma possibilidade de quebrar as barreiras que coloco sobre mim. Dentre elas; a da comunicação.

Talvez eu seja uma dessas pessoas que não sabe se expressar, e que, todo o tempo, busca algum subterfúgio para expor as suas emoções. Realmente sinto dificuldades em formar frases, escrever textos. Sinto dificuldades em organizar meus pensamentos. Sinto dificuldade em organizar a minha vida e meus sentimentos.

Gostaria de escrever com os olhos.
Gostaria de poder fazer isso, pois talvez eu conseguisse transpor um pouco mais de fidelidade às minhas palavras. A mesma fidelidade que imagino ter com o olhar.
Seria ótimo poder manter uma conversa, mesmo que por alguns instantes, com um simples toque de retina na pupila da íris da pessoa que me vê. Talvez eu não seja treinado nisso e, talvez, eu também não saiba me comunicar pelos olhos. Já me disseram que sim, que eu sei. E já me disseram que o olho é a porta da alma.

Nesse caso, eu possuo uma alma míope e astigmática. Uma alma que precisa de alguma lente corretora para enxergar além e exercer alguma espécie de comunicação. Mesmo que conturbada.

Sempre penso na possibilidade do encontro. A comunicação é uma forma de encontro. Mesmo a comunicação falha. Talvez eu realmente me sinta uma pessoa solitária, mas é pelo fato de ter ciência da minha incapacidade de comunicação verbal. Ela é feita em blocos. Em segmentos de conteúdo que você interpreta e decifra uma pequena parte de mim.

Eu necessito de contato. Contato imediato, por que o amanhã me é incerto – incerto como os pensamentos que não sei nomear, como os sentimentos que não aprendi a transpor.
Sou tão desorganizado que só posso agradecer quando me sinto encontrado.
Quando alguém me ajuda a me encontrar.
Mesmo que encontre, no início, só um bloco de mim.
Pois esse é sempre o primeiro passo.