sábado, 3 de abril de 2010

Digam 'X'

Não sou alguém tão vivido e experiente, mas nos meus 18 anos de pequenas historias consegui saborear alguns momentos que puderam ser registrados por uma máquina fotográfica de filme.

Não cheguei a viver aquela época da febre da máquina Polaroid, mesmo sempre querendo ter uma. Era coisa de outro mundo saber que segundos após tirar a sua foto ela estaria em suas mãos! Em outras épocas, seria coisa do capeta.

Fotografei você na minha Rolleiflex.
Revelou-se a sua enorme ingratidão.
Não que eu seja fã do capeta, ou acompanhe sua carreira de perto. Na verdade, o capeta é quem me segue. Mas não posso deixar de manifestar a minha revolta com a união que o capeta conseguiu fazer entre duas coisas, aparentemente tão banais, mas que acabaram com a poesia das minhas fotos reveladas; o Orkut e a máquina digital.
O primeiro surgiu como quem não quer nada... Uma rede social. Mas de repente, ao fuçar suas funcionalidades, descobrimos o álbum de fotos. Pobres de nós. Pobres mesmo eram os pobres, como eu, que não tinham máquina digital e não conseguiam acompanhar a quantidade de fotos que todos os outros amiguinhos colocavam.

Esse tipo de foto acabou com a idéia de registro fotográfico. Viraram um book da vida. Os flagrantes pararam de acontecer e deram lugar às poses combinadas e caretas decoradas. Claro que tudo isso já existia, mas era caro ficar tirando 36 poses de uma foto idêntica.

Meu coração é uma máquina antiga, daquelas que não aceitam a exclusão de fotos. Algumas podem até sair queimadas, por que eu sou daquele tipo de criança que não entende que abrir a capinha queima o filme. Eu costumo ser desobediente. Procuro a luz para abrir a capinha do meu coração e sempre queimo os filmes que tento guardar. São poucas as vezes em que revelo meus filmes, mas ainda acho importante que as películas continuem a ser grafadas com imagens casuais.

3 comentários:

Lívia da Estrella disse...

Tava conversando sobre isso - os filmes revelados - ontem mesmo com a minha mãe, veja só!
É que, no meio da mudança, abri a gaveta onde ficavam vários álbuns (reais) de fotos. E aí não resisti... Deu saudade: da minha época banguela e das máquinas com filme. Da Polaroid que nunca tive hahaha
Eu escrevi um texto sobre o fenômeno do orkut e a fotografia para a aula de sociologia. O título era "O Obscurantismo reluzente".

Lembra que vc me disse: coloca mais fotos suas ATUAIS nos seus álbuns! Mas é que essa onda de poses ensaiadas me enchem tanto que normalmente não saio nas fotos dos eventos, ou fico tentando capturar a realidade espontânea.
(:

Lívia da Estrella disse...

Achei o texto!
A parte sobre fotografia...

"Ao vender uma câmera digital em até 12 parcelas, uma empresa está vendendo não somente um produto, mas também a sensação ou ideia de que se pode tornar um fotógrafo já no ato da compra. Tendo posse do instrumento, a pessoa acredita piamente estar preparada para tirar as fotos mais bonitas da turma. Começa uma série de auto-retratos, um bombardeio de cliques, onde a única técnica aprendida é qual posição valoriza seu rosto. Flashes do obscurantismo do consumismo - da qual é vítima e fomentadora."

Mayra disse...

Adorei os últimos textos, Bru.
Você é o meu orgulho.