sábado, 24 de abril de 2010

O meu fim será (mais ou menos) assim

Serei um velhinho solitário. Um pouco patético, até. Um velhinho bonzinho, apesar de parecer sábio.

Nesse dia, eu estarei com uma roupa simples, mas fazendo de tudo para parecer um personagem de algum filme qualquer. Estarei totalmente grisalho, de dreads e com minha ampla calvície aparecendo. Talvez eu use chinelos que lembrem tamancos, junto com uma meia de algodão, uma calça de moletom e uma camisa regata branca.
Ao lado de um toca CD e com um bom e velho notebook na minha frente (não por ser prático, mas nesse época será bonito viver assim. Desapegado da tecnologia. Será uma época de reciclagem). Darei um trago no meu cigarro, olharei para meu texto por cima da fumaça e darei um sorriso debochado. Vou pensar, olhando a fumaça:


- Fumar é uma droga.


Me levantarei, colocarei o notebook sobre qualquer superfície plana que encontrar pelo meu caminho e irei em direção à cozinha da minha casa. Lá, irei encher uma caneca de café e irei procurar o meu jornal. Por acaso, o jornal daquele dia não haverá sido entregue, então eu descerei pelas escadas até o térreo (visto que morarei no 9º andar). Descerei pela escada, não por conta da minha saúde, e sim para parecer que sou um velhinho atlético.
Chegarei no térreo um pouco cansado, mas não me mostrando ofegante. Ainda estarei com o cigarro na boca, mas irão falar assim que eu passar:


- Ele é o Seu Lourenço. É meio sozinho. Não mexe com ele, não.


Irei atravessar a rua, mas não perceberei o sinal aberto. Um carro baterá no meu corpo frágil.
E meu copo de café cairá no chão, ao lado dos meus óculos quebrados que irão enxergar um cigarro apagado e fora de foco.
E pronto. Escuro.


Quase isso.
Mas de banho tomado.

domingo, 18 de abril de 2010

Retas paralelas

Pelo conceito de física
(Que cai no vestibular)
Duas retas paralelas
Nunca podem se cruzar

Mas se o infinito é um globo
(Não precisa ser azul)
Logo; retas paralelas
Se cruzam no pólo sul

Seguindo a rota longa
(E contando com a sorte)
Essas retas paralelas
Cruzarão no pólo norte

E assim, sendo pra sempre
Um desencontrar bonito
Somos retas paralelas
Que se cruzam no infinito

(Para o Grilo e para o Bin)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Assassino do saber

Pra cozinhar é preciso força
Uma força que me esforço para ter
É uma força pra queimar o que se ama
Para depois de se queimar, comer

Repartindo tudo aquilo que se tem
Deixando tudo mais bonito que a gente
Pra lembrar que o conceito de igualdade
É tratar diferente o diferente:

Quem menos comeu na vida pode comer
No meu jantar, que a comida é servida
De uma forma tão completa que a gente
Se esbalda só com a força do talher

Posta a mesa: quem é nulo não cozinha
Pois quem come talvez mate para viver
Quem cozinha é uma espécie de assassino
E eu sou um assassino do saber



sábado, 3 de abril de 2010

Digam 'X'

Não sou alguém tão vivido e experiente, mas nos meus 18 anos de pequenas historias consegui saborear alguns momentos que puderam ser registrados por uma máquina fotográfica de filme.

Não cheguei a viver aquela época da febre da máquina Polaroid, mesmo sempre querendo ter uma. Era coisa de outro mundo saber que segundos após tirar a sua foto ela estaria em suas mãos! Em outras épocas, seria coisa do capeta.

Fotografei você na minha Rolleiflex.
Revelou-se a sua enorme ingratidão.
Não que eu seja fã do capeta, ou acompanhe sua carreira de perto. Na verdade, o capeta é quem me segue. Mas não posso deixar de manifestar a minha revolta com a união que o capeta conseguiu fazer entre duas coisas, aparentemente tão banais, mas que acabaram com a poesia das minhas fotos reveladas; o Orkut e a máquina digital.
O primeiro surgiu como quem não quer nada... Uma rede social. Mas de repente, ao fuçar suas funcionalidades, descobrimos o álbum de fotos. Pobres de nós. Pobres mesmo eram os pobres, como eu, que não tinham máquina digital e não conseguiam acompanhar a quantidade de fotos que todos os outros amiguinhos colocavam.

Esse tipo de foto acabou com a idéia de registro fotográfico. Viraram um book da vida. Os flagrantes pararam de acontecer e deram lugar às poses combinadas e caretas decoradas. Claro que tudo isso já existia, mas era caro ficar tirando 36 poses de uma foto idêntica.

Meu coração é uma máquina antiga, daquelas que não aceitam a exclusão de fotos. Algumas podem até sair queimadas, por que eu sou daquele tipo de criança que não entende que abrir a capinha queima o filme. Eu costumo ser desobediente. Procuro a luz para abrir a capinha do meu coração e sempre queimo os filmes que tento guardar. São poucas as vezes em que revelo meus filmes, mas ainda acho importante que as películas continuem a ser grafadas com imagens casuais.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Volte sempre

Sempre tive dúvidas com essas coisas de uma próxima vida. É muito claustrofóbica a idéia de que podemos, um dia, acabar. Tudo, de repente, vira um breu e você não enxerga nem o escuro, por que a sua consciência se perdeu em algum espaço do tempo. Os seus neurônios, que outrora te faziam rir e chorar agora estão entranhados na terra, em breve existirão num fruto que um pássaro irá comer... E como dizia o Rei Leão: “É um ciclo sem fim.”

Cada um renasce da forma que quiser...
Mas não me agrada a idéia de que tudo que me rodeia, inclusive minha falta de certeza, pode, um dia, virar uma amora velha que cai da árvore.

Hoje acordei com uma notícia triste para minha infância, que está, cada dia mais, ficando pra trás como recordação e não como abandono. O Tio Lúcio morreu.

Eu queria dizer que o senhor está com Deus, mas sou tão egoísta que prefiro comer todas as amoras que encontrar, só pra ter a sensação de que o senhor não acabou.