sexta-feira, 19 de março de 2010

De uma esburacada...

Homens caminham com elegância. Ainda mais, os elegantes. Eles são os que encontram a forma correta da coluna, que precisa parecer dolorida para quem vê (e insuportável para quem faz). Pé, ante pé, como uma valsa ensaiada, eles desfilam pelas ruas e bielas, vecos e savenidas. Mesmo quando não perfumados, seu requinte de malandragem pelas bordas transborda um odor que disfarça o salgadinho tempero das tardes quentes.
Cumprimentam-se, como que se fossem parceiros de mictório. Apertos de mão antes, nunca depois da conversa. Um sorriso amarelo e azedo que é aliviado pelo desapertado momento da confraternização. Que amizade bonita! Se a amizade não acontecesse, cada um se fechava em seu mundinho e ‘bora tocar a vida! Eles balançavam o mesmo gingado, mas não precisavam ser amigos ou inimigos, era só continuar o velho ditado ‘uma mão lava a outra’.
Às vezes era bonito pagar um doce de boteco pra uma criança que estivesse acompanhada de uma mãe mais doce que o bonito.
Quando desamarrado o sapato, não se abaixavam para amarrá-los. Andavam com os cadarços soltos mesmo, como se houvessem escolhido aquela alegoria para seguir seus calcanhares. Quando, raramente, encontravam alguém num estado financeiro pior que o seu, pagava-lhe uma rara nota verde de R$ 1,00 para que o pobre mais fedido lhe amarrasse os cadarços e desse um nó em sua alma abarrotada de odores.

Só no sapatinho...

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