quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Outro dia acordei numa manhã que se descobriu com cheiro de carne de panela.

Era gostoso o cheiro de carne de panela que fugia da cozinha da casa ao lado e se escondia pelas frestas da porta de entrada. Todo domingo amanhecia com cheiro de carne de panela. Dentro daquela casa de espírito tão abarrotado, uma esgueirada de aroma novo tirava um pouco da umidade das paredes e fazia daquela sala um paliativo da saudade do interior.
Daí, aos domingos, a casa se transformava. O cheiro invadia a sala, o calor invadia a cozinha, o som escapava do quarto e o banheiro vivia a espera de um Veja Multi-Uso.
As roupas, tão coloridas e amassadas no chão, faziam par aos sapatos sem par espalhados pelo chão e, vez ou outra, pela estante. Mas no meio daquele baile sem casal, havia um sapato com um antigo par de meias, que haviam pertencido a mim em outra fase de mim.
E no meio daquela festa, pouco importava as meias esquecidas, da pessoa esquecida que um dia fui. Quando, num dia mais chato que o domingo, aqueles sapatos forem encontrados, eu não saberei dizer de quem foram aquelas meias. E, como alguém que tem uma cicatriz e não se lembra da dor, eu me despeço do sapato e da meia colocando-os novamente no armário, num cantinho um pouco mais escondido.
Escondendo da memória a pessoa que esqueceu as meias ali quando tinha medo de aprender a cozinhar uma carne de panela.

Um comentário:

Carolina Augusta disse...

Pretoo adorei, parece um sintonia, eu penso ou sinto, ai venho aqui e leio algumas palavras tão cheias de significados, que expressam mais do que bem esses pensamentos e sentimentos!

Beijooo Carol.