domingo, 29 de novembro de 2009

Capotando

Eu já desisti de tentar ser feliz.
Agora eu vou errando, que é no erro que a gente descobre a fagulha do sorriso.

O homem e o muro

Ele era o homem mudo que observava as flores por cima do muro. Enquanto todos caminhavam, sentiam suas dores nos calos e suavam um pouco por causa da roupa excessiva, o homem observava, atônito, o muro que falava com ele.
E o muro falava coisas incríveis. Os dois conversavam sobre a infância. O muro dizia que sentia falta do peso do homem, mas do peso de quando ele ainda era menino e o homem, em resposta, dizia que sentia saudade dos joelhos ralados que tinha quando criança. O muro dizia que agora as pessoas não o usavam mais como parte da brincadeira, e passaram a encará-lo como obstáculo. O muro disse que as obras de arte que faziam nele, só o deixavam mais sem personalidade. Não que ele não gostasse... Achava bonito as pessoas se expressarem através dele.
E o homem chorou junto com o muro quando ele disse que as pessoas só pensam na sua expressão, e se esquecem de chorar pelo concreto.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Devaneios de 00:54

Eu sou assim... Talvez um pouco esquisito. As vezes sinto a necessidade de ser poético.
Tenho medo da solidão, e quando ela vem é o momento em que minha mente mais evolui.
É o lugar onde eu posso chorar para não me acariciarem.

Nós sempre nos desencontramos.
Quem sabe não seja essa a prova de que, em algum momento, nós iremos nos encontrar?

Eu só detesto essa necessidade de não respeitarem o caos da minha tranquilidade.

Estou tranquilo e feliz. Estou como um porco.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A minha amante escancarada

Meus dedos inexperientes tentam encontrar os acordes certos de uma melodia que não existe, mas eu imagino. Minha boca não sabe cantá-la e meus dedos, que estão menos treinados, só penam e machucam. Eu saio pensativo e tristonho por machucar as mãos e por mais uma frustração.
Mas daí ela olha pra mim do outro lado do sofá com seu corpo violão. E sempre com aquele sorriso de traste ela me diz toda dengosa:

- "Deixe de manha, meu nego! Vem me dedilhar todinha!"

E eu passo a noite toda sorrindo com ela nos braços.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Outro dia acordei numa manhã que se descobriu com cheiro de carne de panela.

Era gostoso o cheiro de carne de panela que fugia da cozinha da casa ao lado e se escondia pelas frestas da porta de entrada. Todo domingo amanhecia com cheiro de carne de panela. Dentro daquela casa de espírito tão abarrotado, uma esgueirada de aroma novo tirava um pouco da umidade das paredes e fazia daquela sala um paliativo da saudade do interior.
Daí, aos domingos, a casa se transformava. O cheiro invadia a sala, o calor invadia a cozinha, o som escapava do quarto e o banheiro vivia a espera de um Veja Multi-Uso.
As roupas, tão coloridas e amassadas no chão, faziam par aos sapatos sem par espalhados pelo chão e, vez ou outra, pela estante. Mas no meio daquele baile sem casal, havia um sapato com um antigo par de meias, que haviam pertencido a mim em outra fase de mim.
E no meio daquela festa, pouco importava as meias esquecidas, da pessoa esquecida que um dia fui. Quando, num dia mais chato que o domingo, aqueles sapatos forem encontrados, eu não saberei dizer de quem foram aquelas meias. E, como alguém que tem uma cicatriz e não se lembra da dor, eu me despeço do sapato e da meia colocando-os novamente no armário, num cantinho um pouco mais escondido.
Escondendo da memória a pessoa que esqueceu as meias ali quando tinha medo de aprender a cozinhar uma carne de panela.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Óbvio

Vou começar esse texto óbvio falando sobre um assunto já esgotado por que muita gente que pensa que pensa insiste em dizer sem se pronunciar.

As pessoas têm uma necessidade em serem singulares. Depois das ingênuas aulas de literatura que tenho tido para poder me preparar para o vestibular, penso que essa necessidade de ser singular apareceu após a primeira geração modernista. Onde aqueles que foram os primeiros a procurar uma real identidade nacional começaram a destruir e reconstruir a partir de tudo aquilo que já existia.

Por isso, essas pessoas que pensam pertencer a uma suposta quarta geração modernista o tempo todo buscam o óbvio e nunca conseguem lutar pelo novo.
O novo, no século XX já foi explorado de todas as formas. Agora só as repetiremos podendo usar da forma antiga para falar sobre o novo.

E o bom é falar para quem não conhece nem o óbvio.
Não falo para quem quer o revolucionário. Não é essa minha busca. Mesmo.
Falo para quem quer o novo. Mesmo que não seja um novo coletivo.

E olha, eu falo do óbvio e todos sabem quem eu sou.

Sou o óbvio.
E após dizer isso, obviamente, obrigado.