domingo, 21 de junho de 2009

O seu nome era Lucas...

Quando Lucas acordou, ele viu poucas coisas ao seu redor. Uma bolsa colorida, um radio antigo da irmã mais velha, um óculos quebrado e um pouco de gordura que sobrava da calça. Era um menino que corria muito, empinava pipa, jogava bolinha de gude e comia mais do que qualquer outro menino da sua idade. Todo mundo chamava ele de ‘filho do Faustão’.

A primeira imagem que eu tenho do Lucas, foi no meu primeiro dia de aula do prézinho. Eu havia chegado naquela escola nova em abril, mesmo as aulas tendo começado em fevereiro. Olhei aquela porta enorme que continha a difícil palavra escrita a dezenas de metros de altura da minha cabeça. Minha leitura, já muito bem treinada, conseguiu identificar aquela palavra complexa e que, por conta da altura, precisei ler dando uns passos para trás: PRÉ.

Lembrei de toda a minha vida.

Aquele dia que apanhei no meio da feira, aquela mordida no braço por que não quis sair do balanço, a “Xaranguinha”...

Pensei em como eu já estava grande. Entrei na sala e vi aquela mulher escondida atrás de uma enorme e linda barriga de grávida, que não notei a principio por causa da timidez. Mal sabia eu que anos mais tarde aquela “Tia Jane” seria minha madrinha de formatura.

A Tia Jane me apresentou para a classe.

Não tinham carteiras na sala do pré. Isso só a partir da primeira série. Nós sentávamos em mesas circulares. Cada mesa tinha uns 4 alunos. Eu sentei numa mesa do fundo, sozinho. A mesa tinha um furinho na madeira. Um furinho muito simpático. E foi ele a minha primeira amizade naquela sala do Pré.

Alguém olhava pra mim. Um gordinho de aparência simpática. Ele fez sinal para eu me aproximar e se apresentou com o nome de Lucas. Me apresentou a Taís, a Joyce e Juliana. Dois nomes tão diferentes, mas por conta dessa amizade, feita em mesa redonda, começaram a parecer um nome só. E desde então, o mundo todo começou a confundir Lucas com Bruno.

A Juliana foi a primeira menina que eu gostei, mas ela saiu da escola no final do ano.

A Joyce era a melhor amiga dela, e foi a segunda menina que gostei. E gostei bem da Joyce. Até a 7ª série, provavelmente.

Mas voltemos a falar do Lucas... O Lucas sempre foi amigo de escola. A gente tinha pouco contato fora. Eu ia na casa dele, ele ia na minha. Mas não muito, só de vez em quando. O Lucas adorava robôs, mas tinha medo que eles atacassem ele durante a noite, e o sonho dele era estudar mecatrônica. Na época que o meu sonho era estudar direito.

O Bruno, digo... o Lucas nunca foi bom com os livros. Na verdade, quando eu comecei com esse mal hábito, ele não me seguiu. Preferiu continuar jogando bola, bolinha de gude e empinando pipa. E mão dele era cheia de cortes, calos.

Foi ele quem me ensinou a fazer um carrinho de rolimã.

Quem me fez empinar minha primeira pipa.

O primeiro menino que me bateu pra eu chorar e em quem eu bati pra ele chorar.

Acho que algumas vezes, ele deixava eu bater nele. Eu era muito mais fraco, mas ele gostava muito de mim. E eu muito dele.

Eu ensinei ele a jogar xadrez. Ensinei ele jogar, até não precisar deixar ele ganhar. Até ele ficar tão bom que nossos jogos duravam horas, geravam brigas e nós dois fomos instrutores de xadrez da escola.

A familia dele me chamava de “filho preto”. Eu sempre estava lá. O Lucas não ia tanto lá em casa. Lá era menos bonito que a casa dele, e poucas vezes minha familia estava lá. Uma vez eu inventei uma conjuntivite pra faltar no ensaio, só pra ficar na casa dele, conversando.

Nunca achei ele bonito, mas a amizade era bonita por si só.

Na infância ele andava todo sujo, com a camisa suada, a calça rasgada, rolava no chão e esfregava o pinto nos outros gritando “COMIDINHA!”, e eu ia no embalo.

Bruno... Quer dizer... Lucas (sempre confundo) muito obrigado pela amizade pura que você me deu.

Obrigado pelo Costelinha, pelo Paquito, pelo Bob e pelo Bruce.

Obrigado pela sua família que sempre me acolheu.

Pelas dancinhas na webcam e vídeos dublados.

Os papéis higiênicos molhados grudados no teto e aquela bomba na secretaria da escola.

Obrigado pela indicação dos sites pornôs e por aquele grupinho de punheta que eu, você, o Ricardo e o Leandro fazíamos no fundo da sala.

E obrigado por passar cola nas provas que eu não sabia.

E que ela siga. A sua vida. Espero te reencontrar, para que eu possa ser seu padrinho de casamento e você o meu. Como o prometido.

Que você batize meus filhos, eu batize os seus.

E nosso pacto de irmão de sangue, feito após nós dois termos cortado o dedo ao mesmo tempo, continue prevalecendo.

Hoje, nós não estamos mais juntos nas fotos, mas saiba que eu sinto a sua falta meu grande amigo.

Meu primeiro amigo.


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