terça-feira, 24 de maio de 2016

Despedida

Outra noite desperto.
Os pensamentos da véspera ainda deixavam os olhos abertos. Revirava-se na cama à procura de uma posição confortável que induzisse ao sono. Respirações cronometradas, profundas, sonolentas. O sono, contudo, não chegava. Pensou na moça que amava e no quanto gostaria que ela estivesse por perto. Mas não era possível. Não era possível fazer declarações apaixonadas e arrependidas, ainda que houvesse arrependimento e paixão. Poucas coisas eram possíveis naquele momento. E a menos provável aconteceu...
A porta do quarto abriu e alguém, segurando uma faca, entrou. A coisa toda foi rápida. Após alguns segundos de embate físico, a faca rasgou o pescoço do rapaz com um barulho de couro seco. O sangue jorrou vermelho no quarto escuro.
Quem tinha a faca fugiu sabe-se lá para onde. O rapaz, agonizante, tentou sair do quarto para descer as escadas e alcançar a rua em busca de socorro, Segurava a garganta. Tentava gritar, mas a dor era intensa. Engasgava no próprio sangue. Teve certeza de que morreria. Lembrou da moça que amava e voltou para a cama. No colchão - molhado e vermelho - repousava o corpo semi-morto. Esticou a mão, pegou o celular. A tela, completamente borrada pelo sangue espesso, reluziu uma luz fraca por conta da baixa carga de energia. 1%, indicou o visor moribundo. Tentou digitar uma última mensagem, mas o cérebro já estava morrendo. Faltava oxigênio. Não havia mais tempo.
Enviou um coração pulsante, afinal.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Acordo no meio da noite

Acordo no meio da noite
pra desejar coisas que já vivi.
Que a vida seja simples como já foi
Que eu nunca mais tenha vontade de sair
do lugar onde estou.

Acordo no meio da noite
querendo saber quem sou eu.
Meu nome chama Bruno e está
cravado na pedra. Mas de qual tempo
você me chama? Você me ama?

Acordo no meio da noite
Sonhei que vinham me matar
outra vez. Outro sonho que se repete
como o da escola, como o do morto
no porão. Quando querem me matar
em sonho, penso em nós.
Sempre penso em nós.

Acordo no meio da noite
e me vejo patético deitado
as vezes pelado pedindo cafuné
as vezes sujo de choro e de saudade e de medo
foi só um sonho diz a voz que
vira e mexe volta pra me atazanar
foi só um sonho volte a dormir
foi apenas um pesadelo descanse os olhos
nada disso aconteceu repouse o corpo
é tudo fruto da sua imaginação não se fatigue
pra que pensar tanta besteira tome um leite
respire um pouco nunca esqueça de respirar
nunca esqueça de respirar
nunca esqueça de respirar!

pronto. agora aos poucos retorne ao sono ao sonho
não pense no passado nem tema mais a morte.

O morto não vem mais
Ninguém vai me matar
Agora tudo está em paz.
Dorme.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Encontro um amor para fugir
Preparamos as malas e vamos
Levaremos poucas coisas, panos
Coloridos. O resto, o devir.

Nessa rota, abandonamos tudo
Que nos prenda a um passado medíocre
Deixo barba. Esqueço que sou míope
Nós: você e eu. Teremos futuro

Em algum lugar? Algum lugar
Irá nos fundir?
A culpa é da terra
Que trata como mortos todos os
Vivos e silenciosamente enterra
Tudo aquilo que já foi nosso?

terça-feira, 6 de outubro de 2015

fim de reza

...
um dois três quatro cinco seis lances de escadas
quando estiver quase chegando, vou
olhar à esquerda de esguelha pra

ver se reconheço figura, alguém...
seja você ou não seja. amém.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A sala de aula - outro sonho

Prólogo
Enquanto durmo, visito lugares
onde já vivi num tempo passado.
A minha última sala de aula
é onde mais visito atualmente.

Ato I
Estou trabalhando,
Compro, como, cozinho,
sigo vivendo como que obrigado a viver.
Um telefone - enérgico – toca.
Meu celular vibra e soa numa
fina melodia.
É uma voz. Uma longínqua voz
que habita numa infância muito antiga:
- Você deve voltar à escola.

Ato II
Eu e os meus antigos amigos
dividimos, sentados entre colunas
e fileiras simétricas, o mesmo cômodo:
a sala de aula onde nos formamos.
O queixo barbudo deu lugar ao
rosto coberto de espinhas pestilentas,
o menino que usava topete conserva
uma bela careca de skinhead e engordou
27 kilos. A menina que queria virar enfermeira
virou enfermeira. A menina que queria virar médica
virou enfermeira, também.
Ninguém levou lanche nesse dia.

Ato III
Sentados, todos nós nos conhecemos.
Sorrimos, perguntamos da vida – como anda?
- Corrida. A vida anda sem arreios.
Entre os nossos sorrisos, porém, um fedor emerge.
Um fedor gigantesco que cola nas paredes e
se prende por dentro das nossas narinas.
- É um peido! – Todos riem.
Todos peidavam pela manhã. A sala sempre cheirava a peido.
- Não é um peido! – Diminuímos o ritmo do riso.
É o nosso fedor. Estamos mortos.

Epílogo
Quando acordo, sinto saudades da escola.
Prezo pelos colegas que dividiram as manhãs
onde eu descobri muito do que venho sendo. Prezo
para que estejam vivos e para que estejam bem.
Prezo por muitas coisas quando acordo e percebo
que por mais que eu preze por pessoas que nunca mais vi
aquilo que mais prezo e temo,
aquilo que prezarei acima de tudo que mais amo!,
será a fatalidade de estar preso à vida,
nem ao passado - que só acesso narrando,
nem ao futuro – essa loteria, mas
ao tempo presente.

A vida é como o teatro
que habita sempre no presente contínuo.

domingo, 14 de junho de 2015

toda noite

toda noite
quando chove
o povo deita
e o sono sempre aceita
que a chuva
vai cair
é um sinal
de que o Tempo se renova
é um plano,
uma promessa,
uma prova
de que o sol já vai surgir